segunda-feira, 21 de abril de 2025

Os Que Se Desfizeram - Capítulo 3 — O Que Vomita Palavras Mortas

    Ele tinha nome, um dia. Também tinha púlpito, microfone, aplausos. As pessoas vinham de longe para ouvi-lo falar. E ele falava. Falava com a voz da certeza, da moral, da verdade embalada e vendida como pão quente. 
 
    Era amado. Era temido. Era seguido. 
 
    Mas um dia, no meio de um sermão sobre retidão, ele engasgou. Não com saliva. Com uma palavra. 
 
    A palavra era “salvação”. Ela se recusou a sair. 
 
    Abriu a boca para repeti-la, mas em vez disso, o que saiu foi um som estranho — antigo, visceral, como se um idioma esquecido estivesse acordando em sua garganta. 
 
    As pessoas riram, nervosas. Depois, se calaram. E ele não parou. 
 
    Daquela noite em diante, não conseguiu mais dizer frases comuns. Tudo que saía de sua boca eram pedaços de poema, trechos de línguas mortas, gritos em forma de flor, risos que sangravam. 
 
    Foi expulso. Da igreja, da cidade, da própria família. 
 
    Começou a andar pelas estradas, murmurando seus fragmentos. Dizem que quem o ouve demais começa a duvidar de tudo: do tempo, da identidade, da necessidade de continuar sendo humano. 
 
    Na floresta, ele achou lar. Ou ela o achou — ninguém sabe bem. 
 
    Foi ali que encontrou Elias. 
 
    Estava sentado em cima de uma pedra que parecia um altar tombado, cercado por folhas que tremiam sem vento. 
 
    Elias se aproximou. O Pregador o olhou com olhos como túmulos — fundos, cheios de ecos. 
 
    “Você chegou tarde demais para ser salvo,” ele disse. Ou talvez tenha dito outra coisa. As palavras vieram num som quebrado, mas Elias entendeu. 
 
    Sentou-se ao lado dele. E, pela primeira vez, quis falar também. 
 
    Mas só saiu um sopro. O início de um novo idioma. 
 
(Continua...) 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

Os Que Se Desfizeram - Capítulo 2 — A Que Costura o Invisível

    Ela não fala. Não porque não pode. Porque aprendeu que algumas verdades não cabem em palavras. E toda vez que tentava nomear o que sentia, uma parte de si morria um pouco. 
 
    Agora, prefere o fio. 
 
    Costura mantos com o que os outros deixam para trás: frases engolidas, memórias negadas, pedaços de pele emocional. Cada ponto é um silêncio aceito. Cada dobra, uma dor acolhida. 
 
    Seu ateliê é feito de matéria estranha — galhos que se curvam como agulhas, folhas que lembram papéis queimados, e uma luz morna que nunca tem fonte. 
 
    Às vezes, chegam novos. Cambaleantes, assustados, ainda com cheiro de gente normal. Ela os vê antes mesmo que atravessem a fronteira. Sente o ar tremular — como quando um raio se aproxima, mas ainda não caiu. 
 
    Naquela manhã, ela sentiu Elias. 
 
    Vinha partido por dentro. Com os olhos cheios de perguntas e os passos carregados de negação. Mas havia nele uma abertura — uma fenda onde o som do outro lado já sussurrava. 
 
    Ele entrou na clareira com a alma em desordem. Ela o olhou. Ele não disse nada. 
 
    Bom sinal. 
 
    Sentou-se, sem saber por quê. Ela trouxe um tecido translúcido — feito de silêncio antigo — e começou a costurar algo sobre seus ombros. Ele sentiu o calor. Sentiu também o choro que nunca chorou escorrendo, sem lágrimas, pela espinha. 
 
    “Quem é você?”, ele quis perguntar. Mas sua boca não se moveu. 
 
    Ela respondeu mesmo assim — com os dedos, com o fio, com o cheiro do ar. “Sou aquela que veste os que se desfazem.” 
 
    Naquela noite, Elias dormiu sob o manto costurado com suas próprias ausências. E sonhou que era feito de vento. E terra. E coisa nenhuma. 
 
    Quando acordou, a Costureira já não estava. Mas em seu colo, deixara uma agulha feita de osso. 
 
(Continua...) 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

Os Que Se Desfizeram - Capítulo 1 — O Som Que Não Se Deve Ouvir

    Durante o dia, Elias era exemplar. 
 
    Cabelos sempre aparados, camisa passada, frases breves, voz controlada. Chegava pontualmente ao trabalho, digitava relatórios com precisão cirúrgica, evitava assuntos polêmicos no almoço. Ele existia como se pedisse desculpas. Vivia como se pisasse em gelo fino — mesmo quando não havia ninguém olhando. 
 
    Às vezes, no entanto, no silêncio entre um clique de teclado e outro, ele ouvia. Um som. Baixo, dissonante, impossível de descrever. Não era voz, não era ruído. Era... outra coisa. Como se o mundo tivesse uma rachadura por onde vazava algo não traduzível. 
 
    Ele tentava ignorar. 
 
    Tomava mais café. Passava mais tempo em reuniões. Comprava coisas que não precisava. Apagava pensamentos com séries de episódios infinitos. 
 
    Mas o som voltava. Sempre mais perto. Às vezes vibrava atrás dos olhos. Às vezes parecia sair do peito. 
 
    Um dia, no elevador, enquanto observava seu reflexo imóvel ao lado de outros reflexos imóveis, o som ficou alto demais. Elias desceu dois andares antes do seu. Andou até a saída de emergência. Abriu a porta. Desceu as escadas sem saber por quê. 
 
    Saiu à rua. E não voltou. 
 
    Na primeira noite fora, dormiu num banco de praça. Na segunda, sob uma marquise abandonada. No terceiro dia, parou de contar. 
 
    Começou a ver coisas — ou talvez a notar o que sempre esteve lá. Pessoas com olhos ausentes. Silêncios espessos entre frases. Rostos que, quando fixados por mais de três segundos, começavam a derreter — não fisicamente, mas em significado. 
 
    E então, no quinto dia, sonhou com ela. A floresta. 
 
    Não era verde. Não era real. Mas havia um chamado, como se cada folha sussurrasse seu nome antigo — um nome que ele nunca disse em voz alta. 
 
    Acordou com lama nos pés. 
 
    Mesmo em pleno asfalto. 
 
(Continua...) 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 13 de abril de 2025

O Grande Encontro - (Hamurabi, Genghis Khan, Napoleão e Dom Pedro I)

[Cenário: Um salão atemporal, em um plano fora do tempo e do espaço. O chão é de mármore branco, o teto é um céu estrelado que se move lentamente. Ao redor de uma mesa redonda, sentam-se quatro figuras imponentes: Hamurabi, Genghis Khan, Napoleão Bonaparte e Dom Pedro I.] 
 
Hamurabi (com voz grave e pausada, seu rosto sereno como uma estátua): 
 
— Senhores, saudações. É curioso nos encontrarmos além da areia do tempo. Eu fui o primeiro a colocar a justiça em pedra. Meu código foi o alicerce de leis por milênios. A civilização precisa de ordem. 
 
Genghis Khan (sorri com ferocidade, sua armadura ainda marcada por batalhas): 
 
— Justiça é boa... mas é o poder que molda o mundo. Eu uni tribos, criei o maior império contínuo da Terra com ferro e cavalgadas. Onde meu cavalo pisou, novas rotas e culturas nasceram. Meu legado é movimento. 
 
Napoleão (com um leve deboche francês, ajeita a gola do uniforme): 
 
— Interessante. Eu também reescrevi fronteiras. Transformei a Europa com ideias e canhões. Levei os ideais da Revolução com a espada. E até hoje se estuda meu Código Civil — que, com licença, Hamurabi, tem um toque mais refinado. 
 
Dom Pedro I (ergue a taça, em pose de orador dramático): 
 
— Ah, meus senhores! Eu proclamei a independência de um império tropical com espada em punho e poesia no coração! Trouxe liberdade a um povo sem mergulhá-lo em rios de sangue. "Independência ou Morte", lembram? Meu grito ainda ecoa! 
 
Hamurabi (inclinando a cabeça): 
 
— A independência sem justiça seria caos. A lei sustenta o império, não a espada. 
 
Genghis Khan (bate a mão na mesa, firme): 
 
— Mas sem a espada, não há império a sustentar! A conquista é o ventre da civilização. 
 
Napoleão (sorri de canto): 
 
— E sem ideias, senhores, tudo isso ruiria. Conquistas e códigos são nada sem uma visão. 
 
Dom Pedro I (com um riso leve): 
 
— Então brindemos ao que somos: o conquistador, o legislador, o imperador das ideias e o libertador do Novo Mundo. 
 
[Todos levantam taças que surgem magicamente diante deles, brindando em um gesto solene que ecoa pelo tempo.] 
 
Hamurabi: 
 
— Que nossos legados sejam lembrados não só pelo que fizemos... mas pelo que inspiramos. 
 
Genghis Khan: 
 
— E que os ventos da história nunca parem de soprar. 
 
Napoleão: 
 
— Que o mundo continue girando sob nossos nomes. 
 
Dom Pedro I: 
 
— E que o futuro saiba que a história também tem alma. 
 
[Silêncio. O salão se desvanece, mas as palavras continuam ressoando como ecos na eternidade.]
 
 
Peça teatral: Odair José, Poeta Cacerense
Imagem: Criada pela IA

sábado, 12 de abril de 2025

Sarah e a Cidade Sem Palavras

    Sarah tinha 16 anos e um mundo inteiro dentro da mochila. Livros de capa dura, brochuras com páginas amareladas, contos de dragões e piratas, romances de outros séculos... tudo isso era seu tesouro. Ela amava a leitura como outros amam o sol: era seu alimento e seu refúgio. Seu lugar favorito no mundo era a Biblioteca Municipal, um prédio antigo com janelas compridas e cheiro de papel envelhecido. 
 
    Em uma tarde chuvosa, depois da escola, Sarah decidiu visitar a sala de livros raros, um lugar pouco frequentado até mesmo pelos bibliotecários. Enquanto caminhava pelos corredores, ouviu um leve zumbido vindo de uma porta entreaberta ao fundo, uma que ela nunca tinha reparado antes. Curiosa, empurrou com cuidado e entrou. 
 
    Assim que cruzou o limiar, sentiu o chão desaparecer sob seus pés. 
 
    Ela acordou em uma praça estranha, cercada por prédios baixos e modernos, mas tudo ali parecia... artificial. As pessoas andavam de maneira apressada, com pequenos dispositivos reluzentes presos ao pulso, e nenhuma delas carregava um livro, revista ou sequer um papel de bala com palavras. 
 
    A jovem procurou por uma biblioteca, uma livraria, qualquer coisa. Nada. Ao perguntar a um senhor onde ficava a biblioteca mais próxima, ele franziu a testa e perguntou: 
 
    — "Biblioteca? O que é isso?" 
 
    Sarah ficou pálida. Ninguém naquela cidade conhecia os livros. Ninguém lia. Tudo era transmitido diretamente para a mente por dispositivos – imagens, sons, comandos. A linguagem escrita havia sido esquecida, considerada "obsoleta". 
 
    Determinada, Sarah se recusou a aceitar aquele mundo sem histórias. Começou a desenhar letras no chão, nas paredes, em papéis que ela mesma fabricava com restos de materiais que encontrava. Aos poucos, algumas crianças começaram a se interessar. 
 
    — "O que é isso?" — perguntavam, fascinadas ao vê-la copiar frases dos livros que lembrava de cor. 
 
    Ela ensinava o alfabeto como quem oferece magia. Escreveu um conto curto em uma parede: “Era uma vez uma menina que descobriu outro mundo através de uma porta escondida...” As pessoas passavam e liam, sem entender direito, mas algo despertava nelas. 
 
    Logo, ela atraiu atenção. A “Reprogramação Central” viu aquilo como uma ameaça ao sistema. Sarah foi convocada por autoridades que a advertiram: 
 
    — "As histórias causam emoções desnecessárias. Desejos. Conflitos. Não podemos permitir isso." 
 
    Mas Sarah não recuou. 
 
    Antes que pudessem apagar tudo que ela havia escrito, as crianças da cidade — já apaixonadas pelas palavras — começaram a proteger seus “livros de parede”, copiando e espalhando os textos. Era impossível parar. A chama havia sido acesa. 
 
    Numa noite, enquanto observava a lua, Sarah sentiu o mesmo zumbido da porta da biblioteca. Um brilho surgiu no chão ao seu redor. Ela entendeu: a porta estava se abrindo de novo. 
 
    Antes de partir, escreveu sua última frase num muro alto da praça central: 
 
    “Os livros não são feitos de papel. São feitos de mundos. E onde houver alguém disposto a imaginar, eles existirão.” 
 
    Sarah acordou deitada no chão da sala de livros raros. Ao seu redor, tudo estava igual, mas dentro dela algo havia mudado. Ou melhor: renascido mais forte. 
 
    Ela começou a escrever. Não apenas para si, mas para os outros. Contou tudo o que viveu naquele lugar estranho, onde os livros não existiam. Seu relato virou um livro. 
 
    E esse livro... você pode encontrar hoje na prateleira da sala de literatura fantástica da Biblioteca Municipal, com um aviso especial na capa: 
 
    “Este livro pode conter portas para outros mundos.” 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 8 de abril de 2025

A maldição de Betel

    O céu sobre Betel estava doente. 
 
    Nuvens giravam em espirais estranhas, como se uma mão invisível as estivesse moldando por trás do véu da realidade. E no centro da estrada poeirenta, caminhava Eliseu, recém-saído de Jericó, onde as águas haviam sido curadas — mas não o mundo. 
 
    Ele carregava mais que a unção de Elias. Carregava algo herdado na travessia dos céus, quando vira a carruagem de fogo. Desde então, ouvia murmúrios no vento, e seus sonhos estavam cheios de vozes que não eram humanas — antigas, vastas, e indiferentes. 
 
    Foi então que surgiram os jovens. Um grupo de quarenta e dois, vindos da cidade, armados de escárnio e olhos vazios. Suas vozes cortaram o ar: 
 
    — Sobe, careca! Vai-te, calvo! 
 
    Mas o insulto não era só contra um homem. Era contra o que falava através dele. E aquilo ouviu. 
 
    Eliseu parou. 
 
    O ar ao seu redor se adensou, como se o tempo hesitasse. Ele ergueu os olhos, que agora não brilhavam com ira — mas com um brilho que lembrava o espaço entre as estrelas. Quando falou, sua voz não era apenas dele: 
 
    — Em nome d’Aquele Que Não Pode Ser Nomeado... vocês foram vistos. 
 
    As palavras reverberaram na terra como um sino de mármore. Então a floresta se abriu — não por entre as árvores, mas entre os planos da realidade. 
 
    Duas formas surgiram. Ursas, mas não exatamente. Seus olhos eram buracos que sugavam a luz, seus corpos tremiam como reflexos numa água que não existe. Elas avançaram com lentidão ritual, como sacerdotisas de um culto antigo. E então veio a fome. 
 
    Gritos. Não apenas de dor — de reconhecimento. Os jovens viam, no momento da morte, algo que sempre souberam, mas jamais ousaram lembrar. E o terror que os consumiu era maior do que as garras ou os dentes. 
 
    Quando tudo cessou, a estrada estava silenciosa. Só o profeta restava, caminhando entre os corpos como uma sombra lançada por outra dimensão. 
 
    Ao longe, o céu girava ainda — como o olho de um deus que acabara de piscar. 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 6 de abril de 2025

Quatro voltas para a eternidade

    Era um domingo de sol ameno, daquele tipo que parece ter sido encomendado só pra fazer a gente lembrar dele com carinho décadas depois. Fazia parte do encanto dos anos 90, uma época em que a gente corria mais descalço do que calçado, e onde a pista de terra batida da escola era o nosso estádio olímpico. 
 
    Lembro como se fosse hoje. A cidade toda parecia estar lá. A arquibancada improvisada de madeira estalava sob o peso da torcida — pais, mães, irmãos, tios e curiosos. Uns vendiam picolés de groselha, outros subiam em árvores pra ver melhor. Aquele tipo de aglomeração que só um evento importante trazia pra cidade: a final da corrida de revezamento 4 x 4. 
 
    A gente era só moleque, mas naquele dia... naquele dia, éramos lenda. 
 
    Nos chamavam de tudo quanto é apelido. Eu era o Pernão, por motivos óbvios — tinha as pernas mais compridas da escola e corria como um louco atrás do vento. O Pescoço era alto e magrelo, parecia um galho de coqueiro, mas tinha resistência de maratonista (e também não tinha pescoço). O Matador não tinha piedade: quando pegava o bastão, era como se a pista fosse dele e o tempo fosse inimigo. E o Piti, ah… o menorzinho do grupo, mas com um coração que parecia maior que todos nós juntos. Era rápido, valente e tinha uma explosão que deixava todo mundo de queixo caído. 
 
    A gente treinava escondido, no campinho de trás da escola, usando um cabo de vassoura cortado no meio como bastão. Tínhamos a nossa própria coreografia de passadas e gritos de incentivo. Ninguém dava muito por nós. Mas a gente sabia… sabíamos o que tínhamos. 
 
    Quando chegou a hora, fiquei com a primeira perna da corrida. As outras equipes estavam alinhadas. Os olhos do público, os gritos, o cheiro de barro seco misturado com pipoca… tudo pareceu sumir por um instante. Só ouvi o apito. E corri. 
 
    Corri como se fosse o último domingo da minha vida. 
 
    Senti o vento bater no rosto e o mundo passar em borrões. Entreguei o bastão pro Pescoço com o coração batendo na boca. Ele voou. Não corria — flutuava. Passou um, dois competidores, e já estávamos na frente. 
 
    O Matador gritou antes de pegar o bastão. Era a sua marca registrada, um rugido que gelava os adversários. Correu como quem foge do próprio passado. Firme, decidido, feroz. 
 
    E então veio o Piti. 
 
    O menorzinho da equipe, o mais desacreditado. Quando recebeu o bastão, a vantagem era pequena, e atrás vinha o time dos garotos da outra escola — os "favoritos", com seus tênis novos e uniforme passado a ferro. Mas o Piti não ligava pra isso. Ele correu como se carregasse os sonhos de todos nós nas mãos. 
 
    E talvez carregasse mesmo. 
 
    O último trecho foi uma eternidade. Eu lembro de gritar tanto que fiquei rouco por dois dias. Todo mundo na arquibancada de pé, gente pulando, jogando boné pro alto, gritando o nome do Piti como se fosse de jogador profissional. Ele cruzou a linha de chegada com o peito estufado e um sorriso que não cabia no rosto. 
 
    A vitória foi nossa. 
 
    Não teve pódio, nem medalha de ouro reluzente, mas aquilo… aquilo foi maior. A gente se abraçou, suados, ofegantes, quase sem acreditar. Choramos. Sim, choramos mesmo sendo “durões”. Era alegria demais pra guardar só no peito. 
 
    Hoje, sentado na varanda, com os joelhos estalando e os dias passando mais devagar, ainda escuto aqueles gritos. Ainda vejo o bastão voando de mão em mão, a poeira subindo, o sol iluminando nossos rostos jovens e sonhadores. 
 
    A corrida passou. Mas aquela vitória, meu amigo… aquela ficou. 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense 
 
Obs. Em memória do nosso amigo Piti (In Memoriam)

sábado, 5 de abril de 2025

A sombra de Caim

    Caim caminhava entre as vinhas ressecadas, os dedos crispados de terra e suor. O céu não respondia, e sua oferta — fruto de seu trabalho, sua devoção — permanecia no altar como pedra rejeitada. Abel, com seu olhar sereno e o cordeiro recém sacrificado, parecia flutuar entre os favores divinos.
 
    Ele não entendia. Por que o Eterno preferia o sangue ao grão? Por que o esforço de suas mãos era menos digno do que o suspiro de um animal? Caim conhecia o relato do Éden — a escolha maldita, a queda, a espada flamejante. Sabia que viver era já uma consequência. Mas ali, naquela terra marcada pela expulsão, era preciso seguir escolhendo. E cada escolha era uma cruz. 
 
    No silêncio do campo, a voz ecoou dentro dele: — "Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Mas se não procederes bem, o pecado jaz à porta, e o desejo dele será contra ti, mas cumpre a ti dominá-lo." 
 
    Caim caiu de joelhos. Era essa a angústia: o saber e o não querer. A liberdade que fere, a responsabilidade de ser humano. Sartre viria milênios depois chamá-la de "condenação à liberdade". Mas Caim já conhecia essa prisão sem grades: escolher é carregar o peso de todas as consequências possíveis. 
 
    O campo se estreitou. Abel vinha ao longe, sorrindo, sem culpa. E Caim sentiu a sombra crescer dentro de si. Não era o ódio que o movia, mas a dor de ser visto por um Deus que não o via. O gesto que seguiu foi menos fúria que desespero — um clamor sem palavras, um grito contra o silêncio divino. 
 
    E quando o sangue tocou a terra, Caim finalmente ouviu. Mas era tarde. 
 
    O solo, agora maldito, não gritaria apenas por justiça, mas por todas as escolhas que virão depois — e por todos os homens que, como Caim, teriam que viver com elas. 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 19 de janeiro de 2025

O eco do silêncio

    Marta vivia em um pequeno apartamento no centro da cidade, cercada pelo barulho incessante da vida cotidiana. O marido, Gustavo, era um homem correto, mas distante, preso à rotina do trabalho e às expectativas de um casamento que há muito perdera o brilho. Os filhos, dois adolescentes, viviam imersos em seus próprios mundos digitais, oferecendo a ela apenas o silêncio como resposta à maioria das perguntas. 

    Por anos, Marta desempenhou seu papel com perfeição: esposa dedicada, mãe atenta, profissional eficiente. Mas, à noite, quando o apartamento se acalmava, o vazio dentro dela ganhava voz. Era um chamado insistente, quase imperceptível, mas que, ao longo dos anos, tornou-se impossível de ignorar. 

    Uma manhã, sem aviso, ela se levantou mais cedo do que o habitual. Preparou o café, escreveu um bilhete curto — "Preciso de um tempo. Estou bem. Amo vocês." — e saiu pela porta. Não levou muito: uma mochila com roupas, um caderno e um livro. 

    Marta seguiu para uma cabana isolada na serra, um lugar que descobrira anos antes durante uma viagem de trabalho. Lá, cercada por serras e árvores que sussurravam ao vento, ela encontrou o que buscava: silêncio. 

    Os primeiros dias foram difíceis. Marta se perguntava se havia cometido um erro. Sentia falta do caos familiar, das vozes dos filhos, do toque do marido. Mas, aos poucos, aprendeu a ouvir o mundo ao seu redor — o som das folhas ao vento, o canto dos pássaros, o farfalhar dos pequenos animais na floresta. 

    Com o passar dos meses, Marta começou a se redescobrir. Pintava, escrevia, caminhava. Percebeu que havia se perdido ao longo dos anos, tentando ser tudo para todos, menos para si mesma. 

    Seis meses depois, Marta voltou para casa. Não era a mesma mulher que havia partido. Seus olhos brilhavam com uma nova força, e sua presença exalava calma. Gustavo a recebeu com um misto de alívio e hesitação, e os filhos a abraçaram sem entender totalmente o motivo da sua ausência. 

    Marta não tentou explicar tudo. Apenas prometeu a si mesma que, dali em diante, nunca mais se deixaria desaparecer. E, em pequenas doses, ela manteve aquele eco de silêncio dentro de si, como um lembrete de quem realmente era. 

Conto: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

O Último Culto

    José Augusto era um homem simples, obreiro dedicado da pequena igreja no bairro onde morava. Sua vida sempre fora marcada pela devoção a Deus e pela busca incessante de uma conduta irrepreensível. Ele acreditava que, independentemente das tribulações, manter-se firme na fé era um chamado divino, uma missão que ele deveria cumprir até o último instante. 

    Naquela semana, entretanto, a pressão parecia insuportável. Problemas no trabalho, discussões familiares e um inesperado diagnóstico de saúde trouxeram uma onda de angústia que ameaçava sua paz interior. Na quarta-feira, enquanto revisava as cadeiras do templo antes do culto, sentiu uma pontada no peito que o fez parar por um instante. Respirou fundo, fez uma oração silenciosa e seguiu com o trabalho. “O Senhor é a minha força”, repetia a si mesmo. 

    O último culto da semana era sempre especial para José Augusto. O culto de domingo à noite tinha um ar solene, como se aquele momento fosse o ponto alto de sua semana. Mesmo cansado e aflito, ele não abriu mão de preparar o ambiente com zelo. A cada banco ajustado e cada hino ensaiado, sentia a presença de Deus renovando suas forças. 

    Naquele domingo, o pregador trouxe uma mensagem impactante sobre o fim dos tempos. As palavras ecoaram com uma força especial no coração de José Augusto: “Vigiai, pois não sabeis o dia nem a hora em que o Filho do Homem virá”. Ele sentiu como se aquela pregação fosse direcionada a ele. Durante o apelo final, enquanto o pregador clamava para que os presentes se entregassem de corpo e alma a Deus, José Augusto foi tomado por uma profunda paz. Fechou os olhos e deixou uma lágrima escorrer pelo rosto. “Senhor, minha vida está em tuas mãos”, sussurrou. 

    Ao chegar em casa, depois de um longo dia de dedicação, José Augusto sentiu o corpo pesar. Fez sua última oração ao lado da cama, agradecendo a Deus por ter sustentado sua fé, apesar das dificuldades. "Pai, obrigado por me manter de pé. Que eu esteja preparado para te encontrar, seja quando for o momento." Deitou-se e sentiu o coração tranquilo, como há muito não sentia. 

    Na manhã seguinte, quando a família o chamou para o café, perceberam que ele não respondia. José Augusto havia partido durante o sono, serenamente, como quem foi recolhido pelo próprio Deus. A expressão em seu rosto não deixava dúvidas: ele encontrara a paz eterna. 

    A igreja lamentou sua perda, mas o exemplo de fé e perseverança de José Augusto ficou gravado no coração de cada irmão. O culto seguinte foi marcado por testemunhos emocionantes sobre a vida do obreiro, enquanto todos cantavam o hino favorito dele: “Mais perto quero estar, meu Deus de ti”. Sua morte, embora singela, foi um lembrete poderoso de que viver para Deus é preparar-se para encontrá-Lo a qualquer instante. 

    José Augusto viveu e partiu como sempre desejou: firme na presença do Senhor. 

Conto: Odair José, Poeta Cacerense