sexta-feira, 30 de junho de 2023

A Noiva na Ponte Branca

    Era uma noite escura e silenciosa, onde a neblina pairava sobre a pequena vila erguida às margens do Rio Paraguai. Os moradores, acostumados com histórias assustadoras, sabiam que a Ponte Branca era um lugar onde os medos e as lendas se misturavam. Mas ninguém estava preparado para o que estava prestes a acontecer. 

    A Ponte Branca era uma estrutura antiga e majestosa, construída há séculos em estilo gótico, com arcos imponentes e detalhes intrincados esculpidos em pedra. O local era conhecido por suas histórias de aparições fantasmagóricas e assombrações inexplicáveis. Os moradores evitavam passar por ali durante a noite, com medo do que poderiam encontrar. 

    Naquela noite, um jovem chamado Ivan, fascinado por histórias de fantasmas e mistérios, decidiu desafiar o medo e visitar a Ponte Branca. Com uma lanterna em mãos e o coração acelerado, ele atravessou o campo nebuloso em direção à ponte. 

    Enquanto caminhava, o vento uivava, arrancando gemidos assustadores dos arcos de pedra. Ivan sentiu os pelos de sua nuca se arrepiarem e uma sensação de opressão no ar. O medo começou a tomar conta dele, mas sua curiosidade o impulsionou adiante. 

    Ao se aproximar da ponte, ele viu uma figura vaga emergindo da neblina. Uma noiva, envolta em um vestido branco desgastado, deu passos lentos e trôpegos em sua direção. Seu véu esvoaçava ao vento e seus olhos brilhavam com uma mistura de tristeza e desespero. 

    Ivan, paralisado pela visão, sabia que estava testemunhando algo sobrenatural. A noiva se aproximou dele e, com uma voz frágil, sussurrou: 

    - "Por favor, me ajude...". 

    O jovem sentiu uma onda de compaixão e coragem invadir seu ser. Ele estendeu a mão para a noiva, oferecendo sua ajuda. 

    A noiva levou Ivan até a margem do Rio Paraguai próximo à ponte e caminhou para as águas em seguida. O jovem notou que seus pés não afundavam nas águas. Ela revelou que há muito tempo, no dia de seu casamento, ela e seu amado noivo estavam atravessando a Ponte Branca quando sofreram um acidente fatal. Desde então, seu espírito permanecia preso ali, incapaz de encontrar a paz. 

    Determinado a ajudar a noiva a encontrar uma tranquilidade, Ivan pesquisou a história da vila e descobriu que um antigo ritual poderia libertar as almas aprisionadas. Ele reuniu um grupo de moradores tristes e, juntos, realizaram o ritual na Ponte Branca. 

    No momento em que o ritual foi cumprido, a noiva brilhou intensamente e desapareceu no ar. Uma sensação de alívio e paz encheu o local, como se o peso das assombrações tivesse sido levantado. A partir desse dia, a Ponte Branca se tornou apenas uma memória assombrada. Os moradores da antiga vila e agora cidade caminhavam por ela sem medo, sabendo que um ato de coragem e empatia havia libertado uma alma atormentada. 

    Ivan, o jovem destemido, nunca mais esqueceu a experiência. Ele sentiu que o mundo estava cheio de mistérios e que a imaginação e a compaixão podiam superar o medo. 

    Sua história seguiu sendo lembrada pela população da vila, até o dia em que máquinas destruíram a Ponte Branca para dar lugar a uma passagem mais moderna na visão dos gestores da cidade. Esquecem-se eles que, mesmo nas sombras mais assustadoras, sempre existe uma luz que pode dissipar o medo e trazer esperança. 

Conto: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 29 de junho de 2023

A proteção invisível do Minhocão

    Há muito tempo, na pacata cidade de Cáceres, existia uma lenda que encantava os moradores. Era a história do Minhocão, uma criatura lendária que vivia nas profundezas da terra. Diziam que ele era um gigante, com o corpo longo e serpentino, coberto de escamas reluzentes e olhos brilhantes como pedras preciosas. 
 
    Segundo a lenda, o Minhocão era responsável pela fertilidade da terra e pela abundância das colheitas. Acreditava-se que ele percorria os subterrâneos da região, deixando um rastro de fertilidade por onde passava. As pessoas atribuíam a ele o crescimento exuberante das plantações e a prosperidade da cidade. 
 
    Entretanto, o Minhocão era uma criatura tímida e reservada. Ele evitava a presença dos humanos e só emergia das profundezas em raras ocasiões. Aqueles que tiveram a sorte de avistá-lo descreviam uma sensação mágica, como se estivessem testemunhando a conexão entre o mundo terreno e o mundo subterrâneo. 
 
    Os moradores de Cáceres aprenderam a respeitar e preservar o habitat do Minhocão. Sabiam que sua existência era crucial para a prosperidade da cidade e, por isso, protegiam os locais onde ele se acreditava que ele habitava. Eles mantinham a lenda viva, transmitindo-a de geração em geração, e tratavam a terra com cuidado, valorizando a natureza e suas dádivas. 
 
    Assim, a lenda do Minhocão em Cáceres tornou-se um símbolo de união entre as pessoas e a natureza. Ela ensinava a importância de cuidar do meio ambiente e cultivar a harmonia com o mundo ao nosso redor. Mesmo que a criatura lendária fosse invisível para a maioria dos olhos, sua presença era sentida e reverenciada por todos. 
 
    E, assim, Cáceres floresceu sob a proteção invisível do Minhocão, provando que a sabedoria das lendas pode nos guiar para uma vida em equilíbrio com a natureza e com os mistérios que ainda nos cercam. 
 
    Hoje já não se fala mais sobre a lenda e a maioria das nossas crianças nem mesmo sabem que um dia o Minhocão existiu, mesmo que só na imaginação das pessoas. O tempo e as novas tecnologias apagam a memória de uma história tão fascinante. 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

Laura e a pequena livraria

    Era uma vez uma garota chamada Laura, uma jovem sonhadora que se sentia perdida em meio às complexidades da vida. Ela parecia ter se distanciado de si mesma e das coisas que antes a faziam feliz. A alegria em seus olhos havia se apagado e a paixão em seu coração se tornara apenas um eco distante. 
 
    Certo dia, enquanto caminhava pelas ruas cinzentas da cidade, Laura encontrou uma pequena livraria escondida em uma rua lateral. Curiosa, ela decidiu entrar e explorar aquele mundo de páginas e palavras. O ar estava impregnado com o aroma dos livros antigos, e a atmosfera tranquila a envolveu instantaneamente. 
 
    Laura começou a folhear um livro aleatório e, de repente, sentiu algo mágico acontecer. As palavras ganharam vida, e ela se viu transportada para um lugar completamente diferente. Cada página virada a levava para uma nova aventura, uma nova história. 
 
    A partir desse momento, Laura encontrou refúgio na leitura. Ela mergulhava em mundos desconhecidos, explorava terras distantes e conhecia personagens fascinantes. Cada livro era uma nova oportunidade de se perder e, ao mesmo tempo, se encontrar novamente. 
 
    À medida que devorava histórias, Laura começou a se reconectar com sua própria imaginação e criatividade. Ela começou a escrever suas próprias histórias, dando vida a personagens inspirados pelas pessoas que encontrava em suas leituras. A escrita se tornou sua forma de expressão e a levou a lugares ainda mais profundos dentro de si mesma. 
 
    Através da leitura, Laura encontrou coragem para enfrentar seus medos e desafios pessoais. Ela se inspirou nos heróis e heroínas dos livros e encontrou força para superar suas próprias adversidades. A cada página virada, ela descobria um pouco mais sobre si mesma e sobre o poder transformador das palavras. 
 
    Com o tempo, Laura percebeu que não estava mais perdida. Ela havia encontrado um caminho para se redescobrir e construir uma nova vida. A leitura se tornou seu guia, sua bússola em direção a um futuro cheio de possibilidades. 
 
    E assim, a garota que se perdeu de si mesma encontrou a si mesma novamente através das páginas dos livros. Laura se tornou uma contadora de histórias, compartilhando sua jornada e inspirando outros a encontrar a magia da leitura em suas próprias vidas. 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 19 de junho de 2023

Peso morto

    Essa é a história de um jovem chamado Rafael. Ele vivia em uma pequena cidade no interior de Mato Grosso cercada por árvores verdejantes. Sua vida estava longe de ser perfeita. Seu pai, Pedro, estava gravemente doente há vários anos, e seu irmão mais novo, Lucas, de apenas dez anos, necessitava de cuidados constantes. 
 
    Pedro havia sofrido um acidente alguns anos antes, onde fora exposto a um veneno mortal que comprometeu seus pulmões. Desde então, sua saúde se deteriorou rapidamente, deixando-o praticamente sem mobilidade. Rafael testemunhava diariamente a luta do pai para respirar, o constante desconforto e a dependência de outros para realizar as tarefas mais simples. 
 
    A vida de Rafael se tornou uma luta constante para equilibrar o cuidado do irmão e o cuidado do pai. Ele sentia-se sobrecarregado e preso. Enquanto Lucas necessitava de atenção e afeto, Pedro demandava cuidados médicos constantes e atenção total. Rafael começou a considerar seu pai um peso morto, acreditando que a morte dele poderia trazer alívio para todos. 
 
    A escuridão da crise existencial pairava sobre Rafael. Ele se via preso entre suas responsabilidades e o desejo de ser livre. A solidão tornou-se uma constante em sua vida, já que poucos conseguiam compreender a imensidão do seu fardo. O jovem sentia que sua própria vida estava sendo desperdiçada, adiada por deveres que pareciam insuportáveis. 
 
    No entanto, no fundo de seu coração, ele sabia que havia algo mais importante do que seu desespero pessoal: o bem-estar de seu irmãozinho. Mesmo em seus momentos mais sombrios, Rafael não conseguia ignorar o amor incondicional que sentia por aquele menino inocente. Lucas era um raio de luz em sua vida, um lembrete constante de que havia bondade e beleza no mundo. 
 
    Foi durante uma noite escura e tempestuosa que o jovem atingiu o ápice de sua crise. Ele observava o velho lutando para respirar, seu rosto pálido e sofrido. Rafael sentiu a tentação de pôr um fim ao sofrimento de seu pai de uma vez por todas, mas algo dentro dele se recusou a ceder a esse impulso sórdido e violento. Uma centelha de altruísmo e compaixão que ainda existia em seu coração o fez parar. 
 
    Na manhã seguinte, Rafael decidiu que não poderia deixar que o desespero o dominasse. Ele buscou ajuda da comunidade local, compartilhando suas dificuldades e abrindo-se para o apoio emocional e prático que lhe era oferecido. Médicos e cuidadores foram contatados para auxiliar no cuidado de Pedro, permitindo que ele pudesse dividir sua atenção e tempo de forma mais equilibrada. 
 
    A medida que o tempo passava, o jovem percebia que havia encontrado uma nova força dentro de si mesmo. Ele aprendeu a aceitar a situação em que se encontrava e a encontrar significado nas pequenas alegrias e momentos de conexão que surgiam em sua vida cotidiana. Ele descobriu que, mesmo nas situações mais difíceis, a compaixão e o altruísmo poderiam florescer, trazendo paz e propósito. 
 
    Rafael encontrou um equilíbrio entre suas responsabilidades e suas próprias necessidades. Ele aprendeu a valorizar o amor e o cuidado, a enxergar a beleza na fragilidade humana e a encontrar força na solidariedade da comunidade. Enquanto Pedro continuava sua luta pela vida, Rafael tornou-se um farol de esperança e inspiração para aqueles ao seu redor. 
 
    O jovem compreendeu que a vida é um presente precioso e efêmero, e que cada momento tem seu valor. Sua história não era apenas sobre desespero e crise existencial, mas sobre a capacidade do ser humano de superar desafios e encontrar um propósito maior, mesmo nas circunstâncias mais difíceis. 
 
    E assim, Rafael aprendeu que a verdadeira bondade reside na aceitação e no cuidado pelos outros, mesmo quando tudo parece perdido. Seu amor por Lucas e a compreensão de que a vida é um presente frágil o ajudaram a encontrar sua própria paz interior e a redescobrir a alegria de viver. 
 
    Em uma tarde de forte calor, ao voltar para casa depois de um dia árduo de labuta, adentrou a humilde residência e viu, estupefato, o corpo inerte de seu velho pai. Do lado da cama, Lucas estava agachado e ao seu lado, o velho travesseiro utilizado para impedir a respiração do ancião. No olhar do menino a tranquilidade de realizar a tarefa que ele não conseguira. 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 14 de maio de 2023

O Sonhador

    "Se um sonho cair e se quebrar em mil partes, não tenha medo de pegar uma delas e começar novamente.” -- Flavia Weedn 

    Quando pequeno pensava que era muito sonhador. Ficava horas e horas imaginando coisas. Viajando pelo mundo e sonhando de olhos abertos. Porque deixamos que os sonhos se vão. Por que não lutamos por ele? As perguntas continuam a martelar minha mente confusa ultimamente. Não posso deixar que destruam a minha felicidade. Preciso resistir e viver. A vida é uma sucessão de erros e acertos. No entanto, quando queremos acertar, notamos que erramos feio... 

    A caminhada exige muito esforço e não podemos parar por alguma coisa que nos impeça de continuar a jornada. Um dos meus sonhos acaba de cair e quebrar... 

    No entanto, dos pedaços que recolhi devo continuar minha caminhada. E é isso que estou fazendo de cabeça erguida! Acordamos no meio da noite e compreendemos que o sonho acabou. A realidade é mais dolorida que o sonho. É preciso coragem para seguir o caminho que apresenta-nos nesse dia. Ergo-me das cinzas, sacudo a poeira e sigo em frente. E, então, percebo que a realidade é outra. O sonho que tinha estava na direção errada. 

    A realidade é bem mais fascinante. E eu queria ter continuado a sonhar. Recomeço. Novas experiências. Novas aventuras. Novos sonhos. Tudo novo. Fascinante! O que nos mata é o medo da mudança. 

    Depois que perdemos esse medo, notamos que as coisas novas são sempre mais saborosas, mais delicadas, mais encantadoras. Além disso, temos experiências e não vamos errar da mesma forma que a primeira vez. 

    O caminho é longo. Desconhecido. No entanto, só de pensar na força de seus olhos, sinto minhas forças se renovarem. Quero apenas viver! 

Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 10 de maio de 2023

A Ponte Branca

    Lembro vagamente do que aconteceu naquela tarde noite de um dia qualquer do ano de 1987. O que lembro e aqui passo a detalhar sem ter a preocupação se vão ou não acreditar na minha história aconteceu nesse tempo. O que lembro bem era que morava em Lambari, uma pequena vila a cerca de 100 Km de Cáceres e que minha avó morava nessa cidade. Vim com algum conhecido do meu pai ou da minha mãe, não tenho certeza, para passar uns dias com a minha avó. 
 
    O fato é que, em primeiro lugar, eu era ainda bem jovem na época e não era, também, muito esperto, portanto, não se assustem com as minhas gafes da época. Por outro lado, lembro-me bem que a casa da minha avó era próxima da Avenida São Luiz e não sei, porque carga dáguas, o indivíduo que me trouxe precisou me levar para o outro lado da cidade. Naquela época a região do Córrego Sangradouro estava cheio de mato e alagado, acho que era época de chuvas. Fato é que, antes de chegarmos perto da região onde se localizava a Ponte Branca o indivíduo falou: 
 
    - Aqui é assombrado! - Em tom bem sombrio e voz embargada acrescentou - Dizem que uma mulher de branco aparece para quem passa aqui sozinho. 
 
    Alguém que estava no carro resmungou: 
 
    - Por que? Como assim aparece uma mulher de branco? 
 
    - É uma noiva que se jogou da ponte porque foi abandonada no dia do casamento. 
 
    - História para boi dormir. Não acredito nessas coisas. 
 
    Na minha infância ouvia muitos casos de aparições, fantasmas, coisas desse tipo. Nunca tive muito medo apesar de, em alguns casos, sentir o corpo todo arrepiar. Fato é que essa história ficou na minha mente. O problema foi mais tarde. O camarada disse que havia perdido a localização da casa da minha avó e não poderia voltar lá para me deixar e que eu teria que ir sozinho. 
 
    - É só seguir reto aqui - Disse ele apontando a rua - Você vai caminhar bastante, mas vai dar direto na Avenida São Luiz. Ai é só dobrar a esquerda e você chega na casa da sua avó. 
 
    O problema não era esse. Eu já havia andando muitos kilômetros a pé. O problema era que o infeliz tinha me sacaneado e agora me deixava em uma fria. O sol já havia se escondido no horizonte e a noite chegava de mansinho quando comeceu a minha jornada. Estava escuro quando avistei a ponte branca e não posso ter certeza de que era real o que avistei. Havia uma mulher de branco caminhando próximo da ponte. Ela chorava e caminhava por entre a vegetação. Meu coração disparou. Pensei em voltar. Mas, e se fosse apenas a minha imaginação? Eu levaria uma bronca do camarada e um esculhacho de minha avó. Resolvi continuar. 
 
    Quanto mais me aproximava da ponte, mais perto me via da mulher. Por um instante pude até ver a sua face chorosa olhando para mim. Trêmulo como uma vara verde passei pela ponte e caminhei apressadamente. Mais ou menos uns 5 Km é a distância que percorri naquela noite e nem vi como fiz isso. Quando dei por mim estava chegando na Avenida São Luiz. 
 
    A mulher de branco que aparecia aos transeuntes da Ponte Branca deve estar muito triste com a destruição que fizeram com essa lendária Ponte e fica apenas a saudade de um tempo que não volta mais. 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 22 de abril de 2023

O pedido de casamento

    José Carlos viu Rodrigo se aproximando. Tinha um semblante preocupado e ansioso. Não sabia o que dizer para ele. Como iria contar?
 
    Helen tinha saído de sua cidade natal há pouco mais de dois meses. Sem muita estrutura familiar e perspectiva no lugar onde nascera, resolveu atender ao pedido do irmão, Hélio, para que viesse morar com ele na cidade grande. Tinha a promessa de trabalhar em um Supermercado cujo dono era conhecido de Hélio e, na visão deste, os dois poderiam acabar se casando. Helen, nos seus 18 anos, carregava em si a beleza da juventude. Era uma morena esbelta de sorriso tímido e lindos olhos cor de mel. Mas, sua maior virtude era o jeito gentil de tratar as pessoas. E foi justamente esse jeitinho meigo que atraiu a atenção de Rodrigo.
 
    Com pouco mais de um mês que ela tinha vindo morar com o irmão na cidade, aconteceu uma tragédia. Dois ladrões invadiram a casa onde eles estavam morando e Hélio foi atingido por um disparo de arma de fogo de um dos ladrões. Eles levaram todo o dinheiro que o rapaz tinha guardado durante alguns anos para comprar uma casa nova. Helen nem sabia que ele escondia o dinheiro em casa. Talvez não confiasse em bancos. No entanto, para desespero dela, os ladrões levaram todo o dinheiro e ainda deixaram-no sem vida. 

    Rodrigo trabalhava com José Carlos na construção de novas vilas. José Carlos, um sargento reformado do exército investia suas economias em vilas e, em uma delas é que Hélio morava e a Helen veio morar com ele. 

    Um dia à tarde Helen ouviu bater na porta e foi atender. Era Rodrigo. 

    - Boa tarde, moça. 

    - Boa tarde. 

    - O Sr. Zé Carlos me mandou vir aqui para resolver o problema do cachorrinho. 

    Helen olhou assustada. 

    - O Pequeno Lula? 

    - É esse o nome dele? 

    - Sim. 

    - Então... – Fez uma pausa. Parecia constrangido. – Os vizinhos reclamaram que ele faz muito barulho. 

    - Sim. Ele late bastante. 

    Houve um silêncio. 

    - Ele era do meu irmão. 

    - Eu sei. 

    - O que vai fazer? - Posso levar ele para um local onde eles cuidam de animais abandonados. Tem um lugar desses no outro bairro aqui perto. 

    Rodrigo pegou Pequeno Lula e acariciou seus pelos. Despediu-se da moça e foi embora. 

    Dois dias depois Helen procurou Rodrigo. 

    - Preciso de um favor. 

    - Sim. 

    - Não sei como vou fazer para pagar o aluguel. Todo o dinheiro que meu irmão tinha foi levado pelos ladrões. O emprego que teria no Supermercado não deu certo. 

    - Por que não deu certo? 

    - O dono disse-me que tinha um trato com meu irmão. Iria arrumar o emprego se eu me casasse com ele. Eu não quis. 

    Rodrigo deixou-se ser surpreendido com um suspiro de alívio. Tentou disfarçar. A moça notou. 

    - Esse mês resolvo para você. Eu pago. 

    - Não sei como agradecer. Mas, assim que conseguir trabalhar eu vou te pagar. 

    Rodrigo sorriu. 

    Era um homem já de meia idade. Tinha em seu rosto as marcas da labuta da vida. Alguns cabelos grisalhos na cabeça e na barba sempre curtinha. Era sempre sério. Dificilmente alguém o via brincando. Sempre trabalhando. 

    Alguns dias depois Rodrigo a procurou. Havia acabado de escurecer quando ele bateu na porta da casa dela. 

    - Boa noite. – Disse ele. 

    - Boa noite. Aconteceu alguma coisa? 

    - Não. 

    Houve um momento de silêncio. Os dois de pé, um em frente do outro. Ele do lado de fora, ela do lado de dentro. 

    - Preciso te falar uma coisa. – Disse ele rompendo aquele silêncio embaraçoso. 

    - Sim. 

    - Então... Nem sei como dizer isso. 

    Ela sorriu. 

    - Sei que você dispensou o rapaz lá do Supermercado. Mas, eu desde que vi você chegando aqui, passei a gostar de você. 

    Helen ficou rubra. Rodrigo tremia. 

    - Eu nunca tive um relacionamento sério. Já trabalho com o Sr. Zé Carlos há quase 15 anos e venho juntando umas economias. Não quero ficar só como ele. Tenho pensado em arrumar uma pessoa para construir juntos um lar e ter filhos. E não quero que pense que estou me aproveitando da situação. Não. Se você não quiser eu vou entender perfeitamente. 

    Helen engolia em seco. 

    - Por isso, vim aqui te pedir em casamento. Você quer casar comigo? 

    Helen estática. Olhos arregalados. 

    - Tudo bem. – Disse ele. – Se você disser não eu vou entender. 

    - Posso pensar? 

    Ele acenou com a cabeça e saiu. 

    Dois dias que se passaram como uma eternidade para Rodrigo. 

    - Eu pensei muito sobre o seu pedido de casamento. E, mesmo você já sendo um homem bem mais velho que eu, consegui ver a sinceridade em suas palavras. Eu aceito o seu pedido. 

    Rodrigo, com o coração batendo forte, procurou José Carlos. 

    - Ela é muito nova para você. 

    Rodrigo começou a preparar as coisas. Foram uma tarde ver uma casa em um bairro próximo. Os dois gostaram da casa. Não falaram muito, mas imaginaram o lar. Imaginaram as crianças correndo pela casa. Sim. Eles seriam felizes. 

    Era tardezinha quando Helen voltava do mercadinho. Ela ouviu uns latidos. 

    - Pequeno Lula? 

    Olhou para um terreno baldio e em meio às folhagens viu o cachorrinho. Acuava alguma coisa no meio do matagal. Foi até lá. 

    - O que você está fazendo aqui? – Disse ao pegá-lo. 

    Dois jovens saíram de dentro do mato. 

    - Por favor! – Pediu Helen desesperada. 

    Já escurecia quando ela gritou por socorro. José Carlos passava na rua ao longe. Não chegou a tempo de salvá-la. Tão jovem. Ainda segurou o corpo quente dela antes de dar o último suspiro. 

    - Rodrigo... 

    José Carlos viu Rodrigo se aproximando. Tinha um semblante preocupado e ansioso. Não sabia o que dizer para ele. Como iria contar? 

Conto: Odair José, o Poeta Cacerense

sexta-feira, 21 de abril de 2023

O amante da amante

    Rildo estava totalmente desolado. O que o amigo acabara de lhe contar era uma tragédia indescritível em sua vida. Como ela fizera isso com ele? Logo ela que sempre lhe jurara fidelidade eterna e sempre declarava que nunca o trocaria por ninguém. Passou alguns dias bem deprimido e quase não saiu de casa. Naquele dia, porém, para atender o seu amigo foi encontrá-lo no Balbino. O amigo havia-lhe confidenciado uma plano para resolver a situação. No caminho foi relembrando como tudo isso acontecera. 

    Ainda na faculdade conhecera Carla, uma morena espetacular. Cabelos cacheados, corpo torneado e sensual e de uma simpatia incomensurável. Não havia ninguém que não a admirava por sua simpatia. Sempre sorridente ela havia cativado a atenção e admiração dele. Contra todos os infortúnios da vida ele havia se aproximado dela e os dois tiveram uma caso de amor muito intenso. Ele ficou apaixonado por ela e queria casar com ela. No entanto, ela não queria casar. 

    Tempos depois ela contou a ele que conhecera um professor da universidade que queria casar com ela. Ele estranhou o fato porque ela havia lhe dito que não queria se casar de forma nenhuma. Como isso era possível? Ela lhe disse que o professor, um cara mais velho e bem sucedido daria a ela a segurança que ela imaginava em um casamento. A estabilidade pesara mais em sua decisão. No entanto, os dois poderiam continuar se vendo, de vez em quando, disse ela, e com bastante cautela. 

    Por uns seis meses os dois ainda tiveram esses encontros às escondidas. Mas, um dia, do nada ela disse-lhe que não poderiam mais se ver. Que ele procurasse esquecê-la ou arrumasse outra pessoa. Ao ouvir tal pedido ele se afastou dela. Provavelmente ela resolvera ser fiel ao seu marido. Sofreu por uns dias e já estava quase superando essa dor, afinal teria que superar esse momento cruel de sua vida, pensava, quando soube do amante que ela havia arrumado. 

    Quase teve um infarto quando soube que ela estava tendo um caso extraconjugal com o famoso Paulão Faixa Preta. O cara era professor de Educação Física, personal trainer, lutador de jiu-jítsu e tinha quase dois metros de altura. Rildo ficou assombrado. Segundo lhe contara a fonte de informação, Carla estava fazendo academia e conhecera Paulão e os dois agora estavam tendo um caso. Não se conformou com isso. Como pode ser tão vadia assim? Ela terminou o caso comigo por causa desse Paulão. Ela não podia ter feito isso comigo. E com esses pensamentos ele chegou ao bar onde o amigo o esperava. 

    - Que cara é essa meu amigo? 

    - Cara de quem não acredita na merda dessa história que acabei de saber. – disse ele ao sentar e pedir uma cerveja. – Como ela pode ser tão baixa a esse ponto? 

    - Isso acontece. Mulheres precisam de carinho e atenção. 

    - Poxa vida! Eu dava carinho, atenção e sempre a tratei super bem. Nem o marido dela dá isso pra ela. Lembra que te contava o que ela me dizia que ele é um cara bom, cuida dela, deu uma casa confortável pra ela morar, mas que não é tão bom na cama com ela? 

    - Lembro sim. 

    - Então... 

    - Vai ver você também não estava conseguindo agradar ela. Olha o tamanho do Paulão... 

    Rildo fez uma cara de desagrado. 

    - Mas qual é a ideia que você tem para me contar? 

    O amigo, então, passou a relatar o plano que havia formulado em sua cabeça. 

    - Ela tem encontro com esse Paulão todas às terças-feiras. Ela mentiu para o marido que após a academia ela tem aulas de zumba, mas, na verdade ela vai fazer “zumba” na casa do Paulão que fica perto da academia. O que você pode fazer é dar essa informação para o marido dela. Ele vai seguir ela e, no mínimo, acabar com a farra do Paulão e você fica livre para reatar com ela. O plano parecia bom. Pensava nele quando voltava para sua casa. O que poderia acontecer? O marido dela poderia matar o Paulão ao flagrar os dois juntos na cama, o Paulão morria, o marido ficaria preso e, Carla, desconsolada, precisaria de um colo amigo e quem poderia ser? Soltou um leve sorriso ao ter esse maquiavélico pensamento. 

    Ele mesmo tratou de tirar uma foto dela entrando na casa do Paulão depois da academia. Por mais ou menos uma hora e meia os dois ficaram no interior da residência dele. Rildo até se contorcia em imaginar o que eles estavam fazendo. Por mais que quisesse não pensar, os pensamentos viam como uma revoada de pássaros na lavoura. E, sempre os pensamentos mais sórdidos. Na saída ela ainda deu um beijo caloroso no gigante e ele deu-lhe um tapinha na bunda. “Te espero na próxima terça, minha deusa fogosa!” – disse Paulão e essas palavras foram como tapas na cara de Rildo. “Você vai ver seu desgraçado, o que te espera na próxima terça” – limitou-se a falar baixinho. 

    Abílio quase teve um desmaio ao ver as fotos que abrira do envelope que alguém tinha deixado para ele no departamento. Além das fotos em que sua esposa estava nos braços de um cara enorme, havia um bilhete com o local dos encontros, dias e horários. E um conselho: “Você pode acabar com essa palhaçada que estão fazendo com você!” 

    Foi a terça-feira mais longa da vida de Rildo. Não dormiu a noite e o dia parecia não passar. Uma ansiedade louca tomava conta dele. Antes do horário ele caminhou para se esconder no terreno baldio que havia próximo a casa de Paulão. Conseguiu um lugar que lhe facilitava uma vista privilegiada. Havia um pé de manga de onde ele havia feito as fotos na terça-feira anterior. De lá ele viu quando Paulão e Carla chegaram entre beijos e afagos e entraram para dentro da casa. Viu também quando Abílio estacionou o carro do outro lado da rua. O coração batia forte. Ia acontecer uma merda ali. Mas, quem mandou esse babaca mexer com a minha mulher? Queria mesmo que o marido dela metesse bala nele. 

    Rildo nem viu direito o que aconteceu porque no primeiro disparo ele escorregou e caiu da árvore. Quando deu por si a tragédia já havia acontecido. Correu para ver e chegou junto com outros curiosos. A cena que viu foi estarrecedora. Na calçada da casa de Paulão estava o corpo estendido de Carla crivado de balas. Seis tiros e uma poça de sangue. Paulão inconformado chorava ao lado dela. Do outro lado da rua, Abílio com o revólver ainda fumegante na mão. 

    Rildo não acreditava que o miserável do marido tenha matado a esposa e deixado o amante vivo. Que espécie de homem faria uma coisa dessas? Em seu desespero não sabia o que fazer. Se abraçava a mulher amada morta no chão, se pulava no pescoço do marido assassino e o estrangulava vivo ou se avançava contra Paulão o amante de sua amante. Acabou não fazendo nenhuma das alternativas que lhe viera na mente. A polícia anunciava a sua chegada com o barulho da sirene e ele resolveu sair do local. 

    No caminho de casa começou a chorar ao lembrar que nunca mais veria o sorriso lindo daquela morena que tanto amava. 

Conto: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 9 de abril de 2023

Ressuscitou

    Que maravilha é sabermos que não servimos um Deus morto, mas um Cristo que ressuscitou e está vivo! 

Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 18 de março de 2023

Isolados

    Antônio Pereira, mais conhecido como Tonho, um senhor de 40 anos, casado e pai de três filhas, empregado de uma empresa de entrega regional, pessoa carismática da sociedade cacerense, liderança inquestionável no bairro onde morou quase a vida toda, um dia qualquer simplesmente desaparece sem deixar rastro. O que pode ter acontecido? 

    Carlos Henrique, mais conhecido como Carlinhos, jovem estudante de Direito, sempre bem visto pela comunidade acadêmica como um promissor profissional da área jurídica, grande esperança da família e sonho das garotas da comunidade evangélica onde ele sempre desenvolveu muitas atividades litúrgicas, um belo dia, simplesmente não sai mais de seu quarto. O que pode ter acontecido? 

    Rafael Antunes, mais conhecido como Rafa, é um homem dinâmico, trabalhador e extrovertido, usa suas habilidades para transportar pessoas, turistas e pescadores, no barco da família pelo extenso Rio Paraguai, pescador de primeira qualidade, em uma de suas viagens nunca mais é visto. O que pode ter acontecido? 

    Se você ficou curioso para saber o final dessa história recomendo que aguarde o novo conto do Poeta Cacerense. Em Breve! ISOLADOS

Texto: Odair José, Poeta Cacerense