segunda-feira, 4 de julho de 2022

Na mesa do bar

    Fazia um calor infernal. Com certeza a temperatura beirava os quarenta graus. Cáceres sempre foi muito quente. Mas, naquela tarde parecia que o inferno havia sido aberto. Estava meio que perdido. As ruas estreitas do centro histórico dificulta quem não conhece a cidade direito. Levou as mãos acima dos olhos para ver direito as casas a sua frente e foi quando avistou o bar. Resolveu parar para tomar uma Coca-Cola ou uma cerveja qualquer. Queria era refrescar a goela.
    Entrou no bar e, antes de pedir alguma coisa, ficou petrificado com o que via a sua frente. Havia uma mesa de sinuca bem no meio do salão, entre a porta e o balcão. Nada de anormal em ter uma mesa de sinuca em um bar. Quase todos eles têm. Mas, não com uma morena daquelas.
    Ela estava deitada de lado em cima da mesa de sinuca. Era um espetáculo. Cabelos cacheados jogados ao lado, seios fartos quase saindo fora do decote da blusa vermelha apertada ao corpo. Um piercing no umbigo e uma tatuagem de borboleta logo abaixo. Um short jeans desfiado que mal cobria metade de sua bunda bem torneada. As pernas eram perfeitas e sensuais. Voltou o olhar para seu rosto e viu o sorriso malicioso. Seu olhar era de uma sedução só.
    Engoliu em seco. Respirou fundo. Agora o suor havia aumentado consideravelmente. Além do calor abrasador daquela tarde o calor daquela morena quase provocava um infarto. Encostou no balcão e pediu uma cerveja ao atendente que mantinha uma cara de poucos amigos. Ficou sem graça com isso. Aquela morena seria alguma coisa desse cara?
    - Também estou com sede – uma voz deliciosa cortou o silêncio – pode me pagar uma cerveja?
    - Está falando comigo?
    - Sim.
    A mulher continuava imóvel em cima da mesa. Vez ou outra mudava a posição das pernas o que exibia ainda mais a sua sensualidade. 
    Pegou outra cerveja e um copo e foi até a mesa onde estava a mulher. Sentia o coração bater acelerado. Colocou a cerveja no copo. A morena sentou-se na mesa e abriu as pernas diante dele. Ficou paralisado. Era a perfeição de mulher. A tentação irresistível. Ela sorriu.
    - Você é muito gentil.
    Então levou um susto ao ver o anão. Ouviu um barulho em um dos cantos do bar que estava mais escuro e viu aquele pequeno homem de cara amarrada e um longo bigode amarelado. Com suas curtas mãos tentava arrastar uma churrasqueira para perto de uma das portas.
    - Está olhando o quê?
    - Nada não…
    A morena então pegou em sua mão.
    - Não liga para ele não. Só está com ciúmes. Sabia que ele tem ciúmes de mim? Desde que cheguei aqui o sonho dele é ficar comigo, mas como vou ficar com uma criatura dessas? Ele nem tem dinheiro. Mas, com você é diferente né? Quer ficar comigo?
    - Ficar? Como assim? Ficar como?
    - Ah seu bobo. Ficando ué. Tem um quarto aqui nos fundos. Você paga para aquele cara do balcão e vamos para o quarto. A minha parte você paga pra mim lá.
    Agora parecia que o calor havia dobrado. Queria tirar logo a roupa e se acabar naquela morena espetacular diante dele.
    - Calma benzinho. Temos tempo.
    Na verdade era um cubículo. Sem nenhuma higiene. Apenas uma cama de solteiro coberto com um lençol furado e um ventilador caindo aos pedaços. Mas, o que importava isso agora? Só não valia o que havia pago por ele. Um banheiro insalubre e sem água o esperava.
    - Ah! Esqueci que não tem água. Vou pedir para o anão trazer um balde de água.
    Saiu do quarto e ouviu ela gritando pelo anão.
    - Traz um balde de água pra mim!
    O anão trouxe o balde de água e ela pediu para ele colocar no banheiro. Antes de sair ainda olhou para ele com um olhar raivoso. Sentiu um calafrio. O coração batia forte. O medo e a tentação daquela morena que fazia ele perder todo o sentido da vida.
    - Tire sua roupa.
    Ela era muito gentil com ele enquanto ele estava muito excitado com aquela beldade na sua frente.
    Tudo foi muito rápido. Mal havia se despido da camisa e nem tinha terminado de tirar a calça. Um grito, vários tiros, um corpo tombando. Mais gritos, outros tiros, outro corpo tombando.
    - Onde está essa desgraçada?
    Estava atônito. Pasmo. Sem reação.
    - Fuja! - ela disse – é meu marido. Ele vai te matar se ver você aqui.
    Não sabe como conseguiu desviar das balas. Dois tiros passaram raspando sua cabeça enquanto corria em zigue-zague. Não sabe como saiu pela única porta. Como conseguiu trombar com o homem em fúria e derrubá-lo e nem como chegou a rua. Não sabe como não foi atropelado pelo carro que freou bruscamente provocando um acidente com o veículo que vinha logo atrás. Não sabe como em questão de segundos já atravessava o outro quarteirão em disparada. Não sabe como correu pela rua só de cueca. Não sabe nem o que aconteceu. A única coisa que sabe é que ainda está vivo e dificilmente passará outra vez perto daquele bar.
    O grande problema agora é que no bolso da calça estava sua carteira com todos os seus documentos...

 

Conto: Odair José, Poeta Cacerense

Do Livro: Contos e Pensamentos do Poeta Cacerense Vol.2

terça-feira, 10 de maio de 2022

Sexta-feira na Praça Barão (Parte I)

    O por do sol era simplesmente indescritível. Uma beleza que parecia ter sido pintado pelas mãos do Criador. 
 
    O dia típico de uma tarde de verão, céu azul sem nuvens e um entardecer de encher os olhos. Sexta-feira! As pessoas começavam a chegar para tomar a sua cervejinha ou o seu chopp no Casarão, no Dito Bendito. Enquanto os garçons e funcionários arrumavam as mesas, algumas crianças brincavam na Praça. No mural do cais pessoas paravam para tirar algumas fotos do por do sol. Que beleza! A princesinha em seu maior encanto. 
 
    Aos poucos as cores foram ficando mais vermelhas e, misturadas ao azul do céu e o verde das matas, dava uma coloração única. Inspiração para os poetas, imaginação para os artistas e paixão para os apaixonados. O que poderia causar mais contentamento à população cacerense? A tarde chegava de mansinho. As luzes foram acesas. Os carros transitavam na típica sexta-feira. Agora já havia muita gente na Praça. O calçadão estava praticamente lotado. Nas TVs passava um jogo da Série B. No Bodega, uma banda afinava os instrumentos. A noite prometia. Tudo normal na Princesinha do Rio Paraguai. Será mesmo? 
 
    O garoto largou a mão da mãe e correu para a escadaria do cais. 
 
    - Volte aqui, menino - Disse a mãe tentando segurar o menino. 
 
    - O que é aquilo? - O menino indagou à mãe e apontou para os primeiros degraus da escadaria do cais. 
 
    A mulher olhou atentamente. 
 
    - Parece formigas. 
 
    Aos poucos outras pessoas também viram. Formigas! Muitas formigas! Algumas pessoas correram para a Praça. Outras correram em direção ao cais para ver o que estava acontecendo. Uma correria começou. Uma gritaria também. Formigas já tomavam toda a orla. Eram enormes. Pretas e vermelhas. E eram milhares. Gritaria! As pessoas gritavam e corriam. 
 
    - Chamem os Bombeiros! - Gritava alguém. 
 
    - Tem que ser a Polícia Ambiental, a Sema - Dizia outro. 
 
    Então houve um grito horripilante. Uma garota havia sido picada por uma das formigas. Ela se contorceu. Sentia muitas dores. Começou a inchar a sua perna e a menina não conseguiu mais andar. Foi tomada pelas formigas. As outras pessoas correram em desespero. Outro garoto, perto do Hispano, também foi picado e logo caiu pelo chão sendo, em segundos, tomado pelas formigas. Desespero total. Outra garota perto da Marinha, um homem perto do cais e as formigas se multiplicavam e tomava toda a Praça. 
 
    As pessoas fugiram. Correria para todos os lados. Mesas derrubadas pelo calçadão. Bares invadidos pelas formigas. Em fração de minutos e tudo estava destruído nas proximidades da Praça Barão. Árvores sem suas folhas, pessoas que foram picadas e cobertas de formigas logo viraram pó. 
 
    Os Bombeiros chegaram e se preparavam para abrir os seus extintores. As formigas voltaram para o único lugar onde apareceram. Em fração de minutos não haviam mais nenhuma formiga. Apenas os seus rastros e a mortandade deixada por elas. 
 
    - Deve ter morrido umas dez pessoas - Disse alguém. 
 
    - Meu Deus! - Exclamou um senhora - O que foi isso? 
 
    - Formigas! - Foi a única resposta naquele momento. 
 
    A lua no céu parecia sorrir com tudo aquilo, mas era apenas impressão das poucas pessoas que conseguiram olhar para cima naquela sexta-feira na Praça Barão. Encostado no Marco do Jauru um homem observava. E, se ninguém notou a sua presença durante a correria, ele sorria. Um sorriso malicioso. 
 
Continua... 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 9 de maio de 2022

O Pipoqueiro da Unemat

 
    Todas as noites, religiosamente, quando havia aulas na Unemat, o senhorzinho estava lá com seu carrinho de pipoca. De longe já sentíamos o cheiro da pipoca sendo estourada. Tinha de sal e tinha de doce. 
    Naqueles tempos ninguém notava, mas o senhorzinho com seu carrinho de pipoca era parte integrante do Campus Jane Vanini. Então veio a pandemia. Dois anos sem aulas presenciais até a volta. Tudo novo, às máscaras ainda a fazerem parte do cotidiano. O Campus em reforma. No pátio se vê vários vendedores de salgados. Mas, o que não se vê mais é o senhorzinho com seu carrinho de pipoca. 
    Sentado próximo ao local onde ele, costumeiramente, encostava o seu carrinho, ouço comentários sobre ele. Alguém dissera que ele morrera. 
    - Covid? 
    - Não sei. 
    Silêncio. 
    - É, meu amigo. Sinto falta daquelas pipocas tão saborosas com bacon que ele fazia. 
    - Sinto falta é da sua alegria contagiante. Ele sempre tinha boas histórias para contar. 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 2 de maio de 2022

Procura

A sua procura tem que ir em busca da procura de Deus e a procura de Deus tem que vir em busca da sua procura! 
 
Pensamento: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Luta

Levanto-me todas as manhãs e sei que será mais um dia de luta. Tenho que lutar e não temer as adversidades. Maior é o que está comigo do que o que está no mundo.

Pensamento: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 23 de abril de 2022

O que é importante

"A verdade tem a ver com honestidade, a paixão, engajamento e simpatia. O importante não é o destino que uma pessoa recebe, mas como ela encara a vida que tem!" 
 
Pensamento: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 9 de abril de 2022

Amor e temor a Deus

Precisamos amar a Deus e não ter medo dEle. 
Se O amarmos de todo nosso coração não precisamos temê-lo porque o seu amor excede todo entendimento! 

Pensamento: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 7 de abril de 2022

As histórias da velha figueira

    Na Unemat, Campus Jane Vanini em Cáceres, existe uma figueira bem mais antiga do que o próprio campus universitário. Essa figueira já viu de tudo que você possa imaginar. E, ela resolveu me contar boa parte de suas histórias. Permitiu-me compartilhar as suas aventuras e segredos que ela guarda durante muitos anos. 
    Não se assustem, apenas permitam-se serem conduzidos ao universo dessa Opuntias brasiliensis que resolveu escancarar muitas histórias acumuladas durante muito tempo. Então venha comigo e revelar-te-ei as histórias da velha figueira. Em breve aqui no blog! 
 
Sinopse: Odair José, Poeta Cacerense
Imagens: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 6 de abril de 2022

O estudante da Unemat

    Um jovem estudante de Medicina do Campus Jane Vanini se vê envolvido em uma trama mortal na cidade de Cáceres. Até onde vai o limite entre a realidade e o sobrenatural? Você não pode perder essa trama no novo conto do Poeta Cacerense. 
    Em breve! 
 
 Sinopse: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 4 de abril de 2022

Melhor falar a verdade

    Ela olhou silenciosamente para ele. Não precisava dizer nenhuma palavra. Ele a compreendia apenas vendo o seu olhar. Ela não estava nada satisfeita. Teria sido uma noite mal dormida? Será que a conta de luz não havia sido paga? Diabos! Como saber? Difícil entender a sua personalidade. O tempo é cruel com quem tem medo das coisas e tão assustador. Como sobreviver neste mundo dessa forma? 
    - Não vai dizer nada? - Resolveu quebrar o silêncio. 
    - Preciso? - Ela continuava com o semblante fechado. 
    - Olha! - Gaguejou no início - Eu sei que devo desculpas, mas... 
    - Mas o quê? - Interrompeu-o - Você acha que isso tem justificativa, isso que você fez? 
    - Depende... 
    - Depende? - Quase gritou - Você não tem é vergonha na cara dizer uma coisa dessa. - Deixou escapar um suspiro - Depende!! 
    - Tá vendo... - Disse ele. 
    - Tá vendo o quê? 
    - Você não me deixa explicar. Quer que faça o quê? 
    Ela olhou para ele. Estava uma fera. Inquieta andou pela pequena sala. Foi até a janela e ficou, por algum tempo, olhando a paisagem lá fora. O dia estava frio e chuvoso. Respingos na vidraça revelava isso. Sabia que estava ventando porque viu o balançar das folhas das árvores. 
    - Posso explicar? - Ele se aproximou e também olhou pela janela. 
    - Como você vai explicar o inexplicável? - Continuava olhando o tempo chuvoso lá fora. - Por acaso o mundo é um lugar confiável? 
    - Não! Não é. 
    - Então... - Sua voz agora era mais calma - Tente explicar. Mas saiba você que será a última vez que vou escutar. 
    - Não foi culpa minha... 
    Interrompeu-se ao ver o olhar dela. Um furacão de último nível era menos aterrorizante. Era melhor falar a verdade de uma vez. 

Conto: Odair José, Poeta Cacerense