quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Ruas, marmitas e jacarés

Eu caminhava sozinho pela escuridão das ruas desertas 
Cercadas de matos e vultos da minha imaginação 
Quando poderia ser apenas um saco plástico levado 
Pelo vento frio da madrugada. 
Eu tinha que caminhar 
Precisa trabalhar para ajudar em casa 
E agora já era um homem. 
Com minha marmita de almoço via o sol sair no horizonte 
Enquanto caminhava rumo a cooperativa de jacarés 
Coocrijapan para ser mais exato. 
Na minha trajetória daqueles anos 90 
Podia sonhar com dias melhores 
Que pudesse me aliviar do sofrimento 
Das mordidas de jacarés e do mal cheiro 
Que impregnava nas minhas narinas 
E demorava dias para sair do corpo. 
É sofrida a vida de uma pessoa no seu amadurecimento 
E lembrar desses momentos é poder viver outra vez 
Admirar a sorte de vencer na vida 
Mesmo em meios as dificuldades. 
Um jovem sonhador caminha apressado para o seu serviço 
Limpar tanques de jacarés 
Para ter o seu salário e poder ajudar a família 
Melhor isso do que ser mais um vagabundo nas ruas. 
A vida nos dá oportunidades para vencer 
Mostra-nos possibilidades 
E devemos nos agarrar a elas. 
Os tanques de jacarés nem sei se existem mais 
Mas o que aprendi na vida me sustenta até hoje 
E as lembranças desses dias sombrios 
São as alegrias das esperanças futuras. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Resoluções


    O que a vida pode nos reservar no limiar de uma nova jornada? O que desejamos para que tenhamos uma vida diferente e que possamos aproveitar melhor o nosso tempo? Tudo isso faz parte de uma reflexão que não pode simplesmente ser esquecida no dia seguinte. Devemos estabelecer metas de termos uma vida mais proveitosa e devemos nos empenhar para que isso seja uma realidade. 
 
    Ler bons livros é um desses caminhos que devemos trilhar. Os livros nos ajuda a pensar, abre-nos os horizontes e são fontes inesgotáveis de conhecimento. Dentre os diversos livros disponíveis, a Bíblia deve ser lida diariamente e meditada. Ela é a infalível Palavra de Deus e dá-nos o alento necessário para o conforto de nossos coração. Além do mais, ela é a diretriz que nos mostra o caminho certo. 
 
    Dentro das resoluções de ano novo não podemos deixar de estabelecer a meta crucial de remir o tempo. Se descuidarmos perdemos muito tempo com bobagens e, o tempo perdido, não podemos recuperar. Então, devemos criar os hábitos de saber lidar com o nosso tempo. Aproveitar cada minuto para realizações que valem a pena e que poderemos deixar de legado. Não sabemos o dia de amanhã, mas estamos vivos para que possamos fazer algo produtivo. Viver a vida que Deus nos concede. 
 
    Que o Senhor nosso Deus nos ajude a sermos dedicados e constantes em sua obra. É o desejo do meu coração e a minha oração ao Senhor. Que eu saiba contar os meus dias e que eu possa ter um coração sábio. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

O Dragão devorador de alface

 

    O pequeno garoto tinha o olhar fixo nos dois senhores sentados no banco da praça e os ouvidos atentos ao que eles diziam.

    - No Ocidente – disse um deles – o dragão, revestido de escamas, de cauda eriçada e vomitando fogo, representa o mal.

    - Ouvi dizer – disse o outro – que na filosofia do Extremo Oriente os dragões eram animais benévolos, simbolizando também a chuva, a neblina e o vento.

    - Na Coréia, cada rio e regato tinham o seu dragão próprio – fez uma pausa e continuou – na China Setentrional e Central, os dragões eram deuses da chuva que irrigavam os campos de arroz e formavam as nuvens com o seu bafo.

    Eram dois senhores bem distintos entre si. Um era alto e magro, negro de cabelos encaracolados já brancos pelo tempo; o outro era branco, baixinho e gordinho de olhar esbugalhado. O garotinho sentara-se bem próximo deles porque adorava histórias de dragões. O senhor negro disse:

    - Desde tempos muito antigos que inundações, vendavais e trovoadas eram atribuídos a dragões que combatiam na atmosfera ou nos rios. Os belos seixos encontrados junto aos regatos das montanhas eram considerados ovos de dragão, que, eclodindo por ocasião das trovoadas, deixavam voar em liberdade os dragões recém-nascidos.

    - Boa a sua história – disse o senhorzinho baixinho com um leve sorriso no rosto – mas a minha é ainda melhor.

    - Então diga.

    - Os dragões provocavam redemoinhos em terra e trombas  de água no mar. – Disse o velhinho sob o olhar atento do garotinho – Quando deixavam os seus covis situados em terra e se erguiam no ar, a pressão que as suas patas exerciam sobre as nuvens originava a formação de chuva.

    - Nossa! – Exclamou o senhor negro.

    Ambos fizeram uma pausa e olharam para os transeuntes que caminhavam pela praça naquele final de tarde. Olharam para o garoto perto deles e pareciam ignorar toda a curiosidade em seus olhos.

    - Os dragões chineses – Disse o senhor negro – eram de cores diversas: pretos, os dragões destruidores e o dragão trovejante da casa imperial; amarelos, os da sorte, e azul-celestes os que anunciavam o nascimento dos homens importantes.

    - Sério?

    - Sim. Já ouviu falar em Confúcio?

    - Sim.

    - Pois é. Na noite em que ele nasceu, dois dragões azul-celestes apareceram na casa de sua mãe.

    - Essa foi boa – Disse o velhinho baixinho e o garotinho pareceu concordar apesar de nem fazer noção de quem era esse tal de Confúcio.

    - Sua vez – Disse o senhor negro para o seu parceiro de histórias.

    - Os dragões podiam também alterar as suas formas e ainda brilhar na escuridão, tornar-se invisíveis, reduzir-se às dimensões de lagartos ou aumentar até ocultar céus e terra. Repousavam no fundo do mar em palácios de pérolas e falavam em voz agradável como o tilintar de pingentes de cobre.

    O garotinho estava cada vez mais impressionado com o conhecimento desses dois velhinhos sobre os dragões. Será que ainda teriam histórias mais impressionantes sobre eles?

    - Os ovos de dragão – disse o senhor negro – um medicamento popular da medicina tradicional chinesa, eram quase certamente fósseis de animais pré-históricos, que os farmacêuticos, na sua maior parte, armazenavam na terra ou reduziam a pó.

    Houve mais uma breve pausa. O sol já se escondia no horizonte e a noite em breve tomaria conta do firmamento.

    - Vou contar uma boa agora – Disse o senhor negro – Prepare-se para ouvir. Será insuperável.

    - Manda ver – Disse o senhor baixinho.

    - A lenda do homem que mata o dragão aparece sob a forma de versões variadas, todas sangrentas. Matar um dragão era a proeza que coroava a carreira de quase todos os antigos heróis, entre eles, Siegfried, Sigurd, Beowulf, São Jorge, São Miguel, Artur, Tristão e até mesmo Lancelot. As versões, numerosas, variavam. O ferreiro John Smith, de Deerhurst, no Gloucestershire, deu leite a beber a um mostro guloso. Depois de ingerir o líquido, o dragão deitou-se ao sol, com as escamas eriçadas, e o corpulento ferreiro, aproveitando a oportunidade, cortou-lhe a cabeça.

    - Nossa! – Exclamou o senhor baixinho – Agora você se superou.

    O garotinho concordou com a cabeça. Em sua mente era impossível ter mais coisas sobre os dragões.

    - Sua vez – Disse o senhor negro para o baixinho.

    - Está bem – Disse ele com um sorriso no rosto – Em Lyminster, no Sussex, um homem matou um dragão oferecendo-lhe um pudim envenenado tão grande que teve de ser transportado numa carroça. O dragão engoliu tudo, pudim, carroça e cavalos.

    - Uau! – Exclamou o senhor negro.

    - Mas essa não é a melhor parte – Disse o senhor baixinho.

    - Não?

    - A melhor parte vem agora – Disse o baixinho com um leve sorriso nos olhos e prosseguiu sob o olhar do garotinho – Na maior parte das lendas, os dragões alimentavam-se de donzelas, mas um escritor do começo do século XVIII, Topsell, na sua História de Quadrúpedes, atribui-lhes uma alimentação mais saudável. Eis o que ele diz: “Eles mantêm-se saudáveis (como Aristóteles afirma) comendo alface brava, que os faz vomitar quando ingerem qualquer alimento nocivo. São-lhes especialmente prejudiciais as maçãs, pois os seus organismos são atreitos a encherem-se de vento, razão porque nunca comem maçãs, mas sempre alface brava”.

    Havia uma expressão de admiração no olhar do senhor negro e do garotinho. Realmente essa ideia de que a alface é o melhor alimento para os dragões ninguém esperava.

    - Tem mais alguma coisa? – Indagou o senhor negro – Porque quero terminar a minha explicação.

    - Só mais uma – Disse o senhor baixinho e destacou: - Embora na sua maioria estes seres fossem temíveis, havia dragões amáveis. O autor romano Plínio menciona um homem chamado Thoas de Arcadia salvo do ataque de um ladrão pelo seu fiel dragão.

    - Massa! – Limitou-se a dizer o senhor negro.

    - Conte a sua parte final – Disse o senhor baixinho.

    - Pois bem – Disse o senhor negro – As lendas eram tão comuns a tantas terras que é possível interrogarmos-nos sobre a sua origem. As interpretações dos artistas assemelham-se extraordinariamente à reconstituição científica dos dinossauros. A suposição é notável. Os dinossauros desapareceram da Terra há 70 milhões de anos, e os antepassados diretos do homem surgiram apenas há 2,5 milhões de anos. Consequentemente, as lendas dos dragões não podem ser uma recordação popular do tempo dos dinossauros. A origem mais provável da lenda é que o homem primitivo, ao encontrar os ossos fossilizados de dinossauros, tenha concluído que aqueles pertenciam a algum animal gigantesco, aterrorizador, com a forma de lagarto. O que há de notável nesta interpretação é como ela se aproximava da verdade.

    - Que maravilha! – Exclamou o senhor baixinho – Então tudo se resume ao que o ser humano cria na sua imaginação?

    - Bem assim! – Concluiu o senhor negro.

    Os dois foram embora naquele inicio de noite. Na cabeça do garotinho, no entanto, os dragões eram fascinantes. O que mais ficou na sua memória ele foi repetindo pelo caminho:

    - O dragão devorador de alface.


Conto: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

2073 (O Imortal?)

    Dalibor. Foi o nome que o rapaz disse se chamar. Tinha um olhar misterioso e fazia longas pausas enquanto tentava explicar alguma coisa para o grupo de pessoas a sua volta. Podia se ver, nas suas pausas, as estrelas que enfeitavam o céu. A noite houvera chegado e com ela a fumaça que os impedia de ver com mais clareza, havia se dissipado. No alto da torre tinha uma espécie de parapeito que deu sustentação aos jovens ali presente. Nos olhos de cada um deles havia um misto de incredulidade em tudo que ouviam. 
    - O que sei é pouca coisa sobre o mundo de vocês – disse Dalibor olhando para cada um daqueles expectadores atentos a sua palavra – meu pai me contou como era antes de morrer. 
    - E quando ele morreu? – Indagou Duda que era sempre a mais curiosa. 
    - Faz muito tempo – limitou-se a responder e fez mais uma de suas longas e angustiantes pausas. 
    Podiam ainda sentir o cheiro daquelas frutas que Dalibor havia trazido para eles. Dissera que era a única coisa nesse dia que podia oferecer a eles uma vez que fazia dias que não saia para caçar. 
    - Voltamos a idade da pedra? – Havia indagado Luara no momento em que Dalibor estendia uma espécie de cesto no chão da torre e apresentava o que tinham para jantar naquela noite: mangas, maçãs e bananas. 
    - Não sei o que isso quer dizer – Respondeu o jovem enquanto olhava para a garota ruiva. 
    O Professor fez uma cara de surpresa. Como aquele jovem não sabia o que era a Idade da Pedra? No entanto, limitou-se a permanecer calado. Observava atentamente tudo que acontecia a sua volta. Era uma situação diferente e precisava colocar os pensamentos em ordem. Havia conversado bastante com a sua colega de trabalho, Soraia, sobre cuidar do emocional de seus alunos. 
    - Eu tinha por volta de dez anos quando meu pai morreu – disse Dalibor enfim – foi atacado por uma Onça garras de águia e não resistiu... 
    - Onça garras de quê? – Indagou Giovana e foi acompanhada por todos em sua expressão de surpresa. 
    - Onça garras de águia – Respondeu Dalibor – nunca ouviram falar? 
    - Não – Respondeu o Professor – Nunca ouvimos falar que existisse uma onça com garras de águias. A não ser na mitologia. 
    - Não sei o que é mitologia – Disse Dalibor – mas as Onças garras de águias são perigosas e traiçoeiras. Tem que tomar cuidado com elas. São enormes e extremamente ágeis. Um descuido e você já era. Meu pai tentava se esconder de uma delas quando saiu para caçar e, na fuga, ficou preso em um cipó. Quando os companheiros dele chegou no local meu pai já tinha sido estraçalhado por ela. 
    - Nossa! – Foi a exclamação quase que uníssona. 
    - Estou com medo agora – disse Júlia. 
    - Todos estamos! – Falou o professor – Mas o medo é bom porque nos ajuda a ficarmos alertas. 
    - Até aqui ele tem que filosofar...- cochichou Duda no ouvido de Pedro. 
    - Eu ouvi – disse o Professor olhando para ela. 
    - O que mais tem de perigoso aqui? – Indagou Carol. 
    - Muitas coisas... – Dalibor olhou para cada um deles – muitas coisas. 
    Enquanto Dalibor fazia mais uma de suas pausas angustiantes para todos que estavam curiosos por não saberem ao certo onde estavam, o Professor observou a lua esplendorosa que iluminava o céu. Com certeza, agora podia ver o brilho das estrelas e a lua magnífica que iluminava tudo a volta deles. Sentado em uma espécie de latão, Dalibor estava de frente para eles. Ao lado do professor estava Luara, Carol, Ícaro e Soraia a sua esquerda; Duda, Pedro, Giovana e Júlia a sua direita. 
    - Tem 60 anos que meu pai morreu – Disse Dalibor enfim e pode ver a expressão de mais surpresa nos rostos de seus interlocutores. 
    - 60 anos? – Indagou Ícaro – quer dizer que você tem 70 anos? 
    Pela primeira vez puderam ver um leve sorriso no rosto do jovem. - Sim – limitou-se a responder. 
    - Você é imortal? – Brincou Giovana. 
    - Não sei dizer ao certo – falou Dalibor – eu só sei que sou o único sobrevivente nascido logo após a catástrofe, pelo menos até onde sei, é claro. Poucos sobreviventes tiveram filhos após os acontecimentos. Meu pai me protegeu durante os primeiros anos até morrer. Depois eu me virei sozinho. Mas, quando tinha 20 anos eu não mais mudei. Sinto-me como se tivesse 20 anos desde então. Não me perguntem porque não sei explicar como isso é possível. Conheço alguma coisa sobre esse mundo e sei que existiu uma vida diferente antes da catástrofe. Meu pai era um dos habitantes que sobreviveu e me contou algumas coisas. Vou ajudá-los na sua busca por respostas, mas não sei se posso fazer muita coisa a não ser indicar lugares que vocês devam ir para encontrar o que precisam para voltar no tempo em que vieram. Quem sabe vocês descobrem coisas sobre mim também e porque não envelheço. 
    - Caraca! – Exclamou Carol – Parece que estamos em um filme de ficção científica! 
    - Que bom que lembrou de nossas aulas de Análises Historiográficas – Disse o Professor olhando para Carol. 
    Dalibor olhou para eles. Pegou um alforge que estava perto dele e tirou um pequeno bastão de dentro. Ao colocar o bastão na mão ele tornou-se um grande arco e ao acionar a outra mão apareceu uma flecha. 
    - Merda! – Exclamou Ícaro – Vi isso em um desenho animado uma vez! 
   - Caverna do Dragão – Disse o Professor – Era um dos meus desenhos favoritos quando criança. 
    - Não sei o que é isso que vocês estão falando – Falou Dalibor – mas essa é minha arma. Ganhei de Bjorn, o velho. Não posso usá-la para o mal, somente se for para proteção da minha vida ou de alguém que eu ame. Ao me dar o arco ele me fez várias recomendações e me revelou alguns segredos deste mundo que, infelizmente, não posso revelar a vocês. 
    - Quem é Bjorn? – Indagou Soraia. 
    - Ele é uma espécie de vidente, mago, feiticeiro, profeta, sei lá – Disse Dalibor – Ele é muito estranho. Aparece do nada e diz coisa com coisa. Sempre um enigma para desvendar. 
    - Parece muito com o Mestre dos Magos de Caverna do Dragão – Disse o Professor – Só falta ser baixinho e usar um manto vermelho... 
    - Não! – Disse Dalibor – É um velho bem alto e magro, de longas barbas brancas, usa um manto, mas é azul escuro e uma vara nas mãos. Há, e um detalhe, só tem um olho. 
    - Deus me livre! – Disse Duda fazendo o sinal da cruz. 
    - Ele pode ajudar vocês – Complementou Dalibor. 
    - Como vamos encontrar ele? – Indagou o Professor. 
    - Creio que não será fácil – disse Dalibor – é impossível encontrar ele a não ser que ele queria encontrar vocês. Mas, como eu ia dizendo, só vou poder orientá-los por onde seguir em busca de respostas para suas indagações. Esse mundo é perigoso. Muito perigoso. Não é mais o mundo em que vocês viveram. Meu pai disse que o mundo que vocês conheceram e que provavelmente vieram acabou no ano de 2073. 
    Era possível ver o assombro nos rostos de todos! 

(Continua...) 
* Da mente de Odair José da Silva

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

2073 - (Prólogo)

    Ergueu os olhos ainda meio ofuscados pela fumaça. Do alto da árvore avistou algumas silhuetas que parecia ser a cidade. Não via mais a ponte e nem como chegar a sua casa. Tudo parecia estar em ruínas. Parecia que tinha passado um furacão e destruído tudo. Mas isso não teria acontecido agora. Pelo que via essas ruínas estavam aqui a milhares de anos. Como isso seria possível? 
    - É professor - disse ao descer da árvore - parece que estamos em um outro lugar e não na nossa cidade. Eu não estou entendendo mais nada. 
    O professor, um jovem senhor nos seus 40 anos, olhou para a colega de trabalho, uma professora mais jovem, 35 anos, mais ou menos, os dois alunos e as cinco alunas, ambos na faixa etária dos seus 15 anos, que haviam saído da caverna. 
    - Se acreditasse em viagem no tempo eu diria que estamos vivendo uma. 
    - Como vamos atravessar o rio? - Indagou uma das garotas. 
    - Pelo jeito vamos ter que nadar. 
    O professor olhou para o céu. O sol estava a pino e um pouco ofuscado pela fumaça. Não conseguia ver de onde vinha aquela fumaça. Não parecia haver algum fogo por perto. A vegetação estava bem verde, por sinal. 
    - Pedro! - O professor chamou um dos alunos. 
    - Sim, professor. 
    - Me ajude com aquelas toras de madeiras ali - apontou para umas árvores caídas às margens do rio - Vamos fazer uma espécie de jangada para atravessarmos. 
    - Ícaro! - O professor chamou o outro aluno. 
    - Sim, professor. - Você vem nos ajudar com as toras. 
    - Professora Soraia! - O professor olhou para a sua colega de profissão. 
    - Diga professor. 
    - Você e as meninas vão pegar cipós para amarrarmos a jangada. 
    - Está bem. 
    Mais ou menos duas horas depois já haviam construídos duas jangadas. 
    - Como vamos atravessar sobre isso ai? - Indagou uma das meninas demonstrando um certo receio. 
    - Subindo encima dela e remando até a outra margem, Júlia! - Disse o professor. 
    - Eu não sei nadar, tenho medo! - Disse outra garota. 
    O professor parou o que estava fazendo no momento e olhou para as meninas. Ambas estavam suadas e com medo. Era possível ver nos olhos delas. 
    - Luara! - Disse o professor para a jovem - Eu sei que todas estão com receio, com medo. Eu também estou. Não sei o que aconteceu. Mas, não podemos ficar aqui. Temos que chegar até a cidade para saber o que aconteceu. 
    Notou uma lágrima no rosto da jovem. Olhou para as outras e disse: 
    - Carol, Duda, Giovana, Júlia e Luara, vocês foram incríveis lá nas cavernas. Me ajudaram bastante, assim como o Pedro e o Ícaro. Não sabemos ao certo o que aconteceu enquanto estávamos dentro das cavernas, mas aconteceu alguma coisa. Temos que descobrir o que é. A professora Soraia e eu vamos cuidar de vocês até os entregarmos aos cuidados de seus pais. Agora temos que atravessar esse rio. Tudo bem? 
    Elas concordaram com a cabeça. 
    - Tudo bem, professor - Disse Luara - me desculpe! 
    - Não tem que se desculpar de nada. Vamos em frente. Pedro, Luara, Júlia e Duda vem comigo nessa jangada - Disse e apontou para a jangada - A professora Soraia, Ícaro, Giovana e Carol vão na outra jangada. 
 
    As águas deslizavam suavemente. Parecia que o rio estava mais vivo. A sensação era de que nem parecia aquele velho rio Paraguai de dias atrás, seco e sem vida. O que teria acontecido? Essa pergunta martelava a cabeça de todos. Com muita força nos braços e incentivo aos alunos para que remassem na direção certa eles chegaram a outra margem do rio. 
    - Aqui é a Carne Seca? - Indagou a Professora Soraia. 
    - Sim! - Respondeu o professor - Ou pelo menos o que era a Carne Seca. 
    Havia um grande matagal no lugar que quase invadia toda a pequena praia. Viram algumas ruínas do que um dia fora uma casa. Não se lembrava de ter visto casas com aqueles materiais antes naquele lugar. 
    - Vamos com cuidado - Disse o professor - Não sabemos o que aconteceu por aqui. 
    Começou a caminhar em meio aos destroços e ruínas de antigas casas agora tomadas pelo mato. Alguns carros envoltos em cipós e vegetação. Era o mesmo que estar vendo um episódio de The Walking Dead. Só faltava os zumbis, pensou o professor que era fã da série. 
    - O que é aquilo? - Indagou Carol apontando para uma espécie de torre. 
    - Eu nunca vi aquilo aqui em Cáceres - Disse a professora Soraia. 
    - Eu também não - Confirmou o Professor - Parece ser uma torre. 
    - Podemos subir nela e ver melhor a cidade - Disse Ícaro. 
 
    Era uma visão aterradora aos olhos de todos. Não existia mais cidade. Ruínas cobertas de vegetação. Podia se ver de tudo. Onde ficava a Igreja Matriz, a Praça Barão, o Geraldão. Tudo em ruínas. 
    - O que está acontecendo! - Exclamou Duda com um olhar incrédulo com o que via diante de seus olhos. 
    - Não faço a mínima ideia - Respondeu Pedro. 
    Houve um momento de silêncio. Todos pareciam refletir sobre a situação. O que havia acontecido com o mundo que eles conheciam e viviam antes de entrarem na Caverna do Jabuti? 
    - Será que estamos sonhando? - Indagou a Professora Soraia. 
    - Ou talvez estejamos mortos! - Disse Pedro. 
    - É. - Disse Júlia - Talvez nós morremos no desabamento da caverna assim como os outros. 
    - A gente não sabe de nada disso - Ponderou o Professor - Só sabemos que não estamos em nosso mundo real. Só isso! 
    Houve mais um intervalo silencioso e por isso eles puderam ouvir. 
    - O que é esse barulho? - Indagou Giovana. 
    Olharam para a escada de onde eles haviam subido na torre. Era uma escada que dava voltas a torre como se fora uma serpente. 
    - Tem mais alguém aqui - Disse o professor e já olhou para o lado na busca de alguma coisa que pudesse usar como arma de defesa. 
    Encontrou uma barra de ferro e pegou-a rapidamente enquanto os passos se aproximavam deles. 
    - Fiquem atrás de mim! - Disse o Professor segurando firme a barra de ferro. 
    - Ai meu Deus! - Exclamou Luara. 
    Houve um minuto de silêncio quando os passos pararam. Podia ouvir o bater dos corações de cada um. O dia estava indo embora. O sol, ainda um tanto prejudicado pela fumaça tentava se esconder atrás da vastidão da floresta que se perdia ao longe. A visão de um majestoso rio cercado de uma floresta quase não foi percebido por causa da aflição que todos estavam sentindo naquele momento. 
    - Calma pessoal! 
    Um rapaz alto, forte e esbelto apareceu no último degrau da escada. Tinha um semblante alegre e simpático. 
    - Não tenham medo - Disse após dar o último passo - Eu sou de paz! 
 
Autor: Odair José, Poeta Cacerense
Obs (Trata-se de uma obra de ficção)

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Você é quem decide!


    "Você pode encarar a vida de duas maneiras: pode vivê-la ou deixá-la passar. Você decide o que fará com sua vida. Você precisa ser a mudança que deseja ver no mundo". 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 2 de abril de 2021

A reflexão do último dia da existência não absoluta do mortal

    Olhou mais uma vez para a imagem a sua frente. Sentia que essa poderia ser a última vez que seus olhos vislumbraria tal imagem. Não fazia a mínima ideia do que haveria do outro lado. Tudo não passava de teorias. Afinal, ninguém havia voltado do outro lado para contar o que lá havia. Desejava muito ter mais tempo. Não queria viver para sempre. Nunca imaginou isso. A imortalidade o assustava. Já não suportava nem mais um dia nesta vida miserável. 
 
    Lembrou de seus dias antigos. Os tempos de crianças quando corria atrás das borboletas e jogava pedras nos pássaros para vê-los voando. Esse sim era um tempo que desejava que não tivesse passado. Quem dera pudesse viver a infância infinitamente. Os adultos são ingratos e imbecis. São todos sem compaixão. Egoístas e miseráveis. Lobos do próprio homem. E nunca gostaria de ser como eles. Mas sentia-se como o pior de todos os mortais. Tudo é uma ilusão neste mundo tenebroso. 
 
    Ainda podia ver aqueles lindos olhos. Com certeza eram os mais lindos que já vira em sua vida. E foi ali que tudo desmoronou. Sabia disso. Aqueles olhos foram a sua perdição. Talvez pudesse seguir outros caminhos se não tivesse deixado eles penetrarem e dominarem seu coração. A partir daquele olhar seus pensamentos tornaram-se prisioneiro dela para sempre. E tudo não passou de mais uma grande ilusão. Amou-a como se fora a única mulher no planeta. Ela não sentiu a mesma coisa. Gosto muito de você , disse-lhe um dia, mais é só isso. Um carinho. Isso foi como um punhal a rasgar o seu coração. 
 
    Cada vez que via um andarilho pelas ruas ou uma criança abandonada pelos pais seu coração sangrava. Onde está a humanidade das pessoas? Sentia o frio das madrugadas e os espinhos do caminho. Ninguém se importava com seus gritos. Ninguém ouvia o seu pedido de socorro. Ninguém se importava. Por que, então, deveria se importar com alguém? Imaginava, em seus sonhos, o mundo sendo destruído por fogo. As chamas cobriam toda a terra. Animais desesperados correndo de um lugar para outro. Gente gritando desesperadas. Mas de nada adiantava. O fogo fazia uma limpeza total. Não ficou nem raiz nem ramo que não fosse destruído. Acordou do sonho com o corpo coberto de suor. Podia torcer os lençóis se quisesse. Ficou aborrecido porque lá fora ainda podia ver as folhas sendo carregadas pelo vento da manhã. 
 
    Definitivamente perdeu todas as suas esperanças. Sabia que nada poderia fazer para mudar aquela situação. Ninguém notaria sua ausência. Sentia-se um nada em meio ao infinito. Poderia deixar essa vida e seria apenas mais um indigente sem identificação. Que diferença isso faria para a humanidade? Quantas pessoas já nasceram e morreram ao longo da existência humana e ninguém se importa. O mundo continuará a existir assim que parar de respirar. Já existia quando chegou aqui. Continuará a existir assim que se for. 
 
     Fechou os olhos outra vez. Sua mente estava muito confusa. Afinal, que escuridão era essa? O limbo existencial ou o fim de tudo que sua mente insana viu ou ouviu um dia. Sente as garras afiadas de seus condutores. Ou são asas? A visão é ofuscada pela linha tênue da vida e morte. Onde está o barqueiro para me conduzir pelo rio da eternidade? Meu coração será pesado na balança? Já cheguei no paraíso? Tudo está em silêncio agora. Embaixo de uma árvore as folhas são levadas pelo vento até pousar suavemente no rosto bucólico de uma pessoa. 
 
Prosa: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

A faca na bananeira

    Esperou o sol declinar-se no horizonte. O amarelo do sol ia desaparecendo e dando lugar ao cinza de uma nova noite que caia naquele lugar tão pacato. Caminhou até os pés de bananeira no fundo do quintal e puxou a faca que havia enterrado em uma delas dias antes. A nódoa pingava da faca um tanto enferrujada. Com certeza uma facada só e ele morreria, pensou consigo. Com cuidado para não ser visto entrou no salão da igreja e atravessou passando por cima do púlpito vazio. O quarto onde dormia ficava em um dos cantos do templo. Colocou a faca embaixo do travesseiro e sentiu o coração acalmar. Parecia que sairia pela boca. O que estava fazendo? Indagava-se a si mesmo em determinado momento. O que aconteceria se matasse uma pessoa? Seria uma tragédia para si mesmo, seu irmão e seu pai. Viviam de favores naquela igreja. O Pastor havia dado-lhes guarida quando a mulher havia ido embora com as filhas. O pai trabalhava na plantação de cana-de-açúcar e passava a noite fora. Naquela semana estava trabalhando no turno da noite. Não poderia deixar que isso acontecesse. Não ia permitir. De forma alguma. Seu irmão era pequeno. Inocente. Aquele lobo em pele de ovelha não ia abusar de um garoto inocente. Não permitiria. 
 
    O velho senhor era bem recebido pelo Pastor e sua esposa sempre que vinha para a cidade. Também pudera. Ele sempre trazia coisas boas da vila onde morava. Frangos caipiras, ovos, queijos, leite, doces, abóboras. Isso o tornava uma pessoa confiável e querida por toda família pastoral. Sem contar que ele era brincalhão com os pequenos filhos do Pastor e com o pequeno garoto. Trazia balas. Então não foi diferente naquele dia. Lá estava ele todo feliz brincando com as crianças. A noite, com certeza seria o pregador. Tinha uma mensagem impactante. Conhecia bem a Bíblia e transmitia uma palavra de conforto e sabedoria. A igrejinha era muito avivada. Os crentes oravam muito. Meia hora de oração antes do início do culto era fichinha para os membros daquela comunidade. Por que Deus não revela o que esse homem é de verdade? Questionava do seu canto enquanto via ele pregar a palavra. Olhou para o seu irmão que já cochilava. Com certeza ia dormir como um anjo e nem imaginava o perigo que corria. 
 
    Sabia que não dormiria naquela noite. O coração batia muito forte. Cobriu o irmão e deitou-se. Tinha o costume de cobrir todo o corpo, inclusive a cabeça para dormir. Entrava alguma claridade pelas frestas da janela. A lua estava cheia. Os grilos cantavam. Olhou por baixo do lençol e viu que o velho ainda estava sentado na cama. Lia a Bíblia. Passou um pouquinho e o viu ajoelhando para orar. Como podia? Não conseguia acreditar que isso realmente fosse verdade. Mas, lembrou-se da última semana em que ele estivera ali. Acordou com um barulho e viu quando o homem havia levantado o lençol que cobria seu pequeno irmão. Quando foi para passar a mão em suas partes íntimas levantou-se rapidamente. O homem assustou e largou o lençol. 
 
    - O que está fazendo? 
 
    - Seu irmão estava descoberto e ia cobrir ele. 
 
    Sabia que não era isso que acontecera. Homem seboso. Ia bolinar com a pequena criança inocente. O velho sentou-se na cama e colocou a cabeça entre as mãos. Cobriu seu irmão e ficou vigiando até o dia raiar. Queria contar para o pai quando chegasse. Mas, sabia que poderia ser mal interpretado e, conhecendo os seus acessos de raiva, poderia apanhar. Melhor não, pensou consigo mesmo. Ninguém vai acreditar na minha história. Tenho que fazer algo. Semana que vem ele volta. Meu irmão não está seguro. Foi então que lhe veio a ideia da faca na bananeira. Não se lembrava onde havia lido sobre a nódoa da bananeira. 
 
    O silêncio era sepulcral. Podia ouvir as batidas do próprio coração. Já era tarde da noite com certeza. O tempo não passava. O irmãozinho tinha um chiado no peito. Podia ouvir também. O velho levantou-se. O coração acelerou. Se ele descobrir o meu irmão eu vou meter a faca na barriga dele, foi o que pensou na hora. Era uma agonia terrível. O tempo parecia ter congelado. O velho andou pelo quarto. Observou se ele dormia. Apenas os três no quarto. Pediu que Deus não permitisse que o homem bolinasse seu irmão. Proteja-nos, Senhor. Mais alguns minutos que pareciam uma eternidade. O velho sentou-se na cama. Deitou. Dormiu. Mais algumas horas e os galos anunciaram um novo dia. O sol raiou. O velho se foi e ficou as lembranças dessa terrível noite na memória deste que vos escreve. 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Evolução mental

"Posso e devo ser melhor. Cada dia caminhar no processo evolutivo. Cada amanhecer posso melhorar. Preciso acreditar nisso, pois tenho compromisso com a renovação da minha mente." 
 
Pensamento: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Vida e morte de Laura

    Essa é a história de Laura. Laura era meiga, delicada e me fazia sorrir. Vezes séria, vezes alegre, o certo é que era muito inquieta. Não parava um só minuto. Cantava, imitava algumas falas. Tinha hora que pensava que ela queria conversar, sei lá, quem sabe fofocar. Acho que sim. O importante é que ela me distraia. Às vezes chegava cansado do serviço e até me esquecia desse cansaço ao conversar com Laura. 
 
    Laura tinha amigos. Na verdade uma amiga, Branquinha, e um amigo, Trovão. Ah, como era engraçado ver os três juntos se divertindo. Quem olhava não conseguia entender essa amizade. Eles eram tão diferentes, mas mesmo assim eram amigos. Fazia frio ou calor, o dia era chuvoso ou de sol quente e lá estavam os três a compartilhar suas ideias, carinho e atenção uns com os outros. 
 
    Mas, como nem tudo nesta vida são flores, chegou o fatídico dia em que a vida de Laura foi brutalmente ceifada. Sem ter nenhum escrúpulo, Malvado galgou os espaços aberto na cerca e alimentou-se de Laura. Sem poder se defender da cilada na qual foi envolvida, a pobre criatura foi devorada pelo cruel Malvado. 
 
    Só Deus sabe a raiva que fiquei quando não mais vi Laura neste mundo. Uma pena indicava o seu fim. Triste e desolado pela perda de Laura passei vários dias imaginando sua vida no além. Será que existe um paraíso só para os pássaros? Laura era meu papagaio. 
 
Texto: Odair José, Poeta Cacerense