sexta-feira, 3 de abril de 2026

O violão

    Seu Francisco nunca confiou em bancos. Dizia que banco era coisa de gente que acreditava demais no mundo, e ele, depois de tanto tempo de vida, só acreditava no que podia tocar. Terra, madeira, ferrugem… e no velho violão pendurado na parede da sala. 
 
    A casa era simples, dessas que rangem mais do que falam. No fim da tarde, quando o sol se derramava pelas frestas das tábuas, o violão parecia respirar junto com o lugar. Ficava ali, suspenso por um prego torto, como um retrato sem rosto. Ninguém ousava tocar. 
 
    Nem a esposa, Dona Alzira, que já o conhecia há mais de quarenta anos, entendia bem aquele apego. Ele não tocava. Não afinava. Não limpava com frequência. Apenas… guardava. 
 
    — Coisa de velho — ela dizia, com o desdém manso de quem já desistiu de entender. 
 
    Mas não era. 
 
    Naquela tarde, Seu Francisco voltou da roça mais cansado que o habitual. O sol tinha sido cruel, o chão duro, e a enxada parecia pesar o dobro. Entrou em casa limpando o suor com a manga da camisa e, por hábito, não por vontade, olhou para a parede. Parou. O prego estava lá. O violão, não. O silêncio da casa mudou de textura. Ficou mais grosso, mais presente. 
 
    — Alzira… — chamou, com a voz baixa. 
 
    Ela apareceu da cozinha, enxugando as mãos no avental. 
 
    — O quê foi? 
 
    Ele apontou. Não precisava dizer mais nada. 
 
    — Ah… isso aí? — disse ela, quase distraída. — Foi o menino. O neto do meio. Levou. 
 
    O tempo não passou. Ele não gritou. Não xingou. Não fez escândalo. Apenas sentou. Devagar. Como se o corpo tivesse decidido desligar antes da cabeça entender. 
 
    — Levou… — repetiu, mais para si do que para ela. 
 
    E então começou a chorar. Não era um choro bonito. Não era desses que emocionam. Era um choro seco, truncado, quase feio. Um choro de quem não tem prática — ou de quem evitou a vida inteira. 
 
    Dona Alzira estranhou. 
 
    — Francisco… pelo amor de Deus… — aproximou-se. — É só um violão velho! 
 
    Ele balançou a cabeça. 
 
    — Não é. 
 
    Ela cruzou os braços. 
 
    — Vai me dizer agora que virou músico e eu não fiquei sabendo? 
 
    Ele soltou um riso curto, quebrado no meio. 
 
    — Eu nunca soube tocar. 
 
    — Então pronto. 
 
    Silêncio. Ele respirou fundo. Olhou para o prego vazio como quem encara uma cova. 
 
    — Tinha dinheiro lá dentro. 
 
    Ela franziu a testa. 
 
    — Que dinheiro? 
 
    — Todo. 
 
    Ela riu. Riu alto. Riu como quem acha que o outro está fazendo uma piada ruim. Mas ele não riu de volta. E isso matou o riso dela no meio. 
 
    — Como assim… todo? 
 
    — Todo, Alzira. O que sobrou dos anos. O que eu não confiei no banco. O que eu escondi do mundo. 
 
    Ela piscou, devagar. 
 
    — Você… guardava dinheiro… dentro de um violão? 
 
    — Dentro da caixa. Tirei as cordas uma vez… fiz um corte por baixo… ninguém vê. 
 
    O silêncio voltou, mais pesado. 
 
    — Quanto? — ela perguntou, agora com a voz seca. 
 
    Ele demorou. 
 
    — O suficiente pra parar de trabalhar. 
 
    Ela sentou. Não por escolha. O corpo também decidiu por ela. Os dois ficaram ali, lado a lado, olhando para o vazio onde antes havia madeira e segredo. 
 
    — O menino… — ela começou — ele nem sabe tocar direito. 
 
    — Melhor ainda — disse Francisco, com um sorriso estranho, quase torto. — Vai descobrir do jeito mais bonito. 
 
    Ela virou o rosto. 
 
    — Bonito? 
 
    Ele assentiu. 
 
    — Imagina… ele abre o violão… esperando som… e encontra silêncio em forma de dinheiro. 
 
    Ela engoliu seco. 
 
    — Ou vende. 
 
    Ele deu de ombros. Conhecia bem a figura do neto.
 
    — Ou vende. 
 
    Pausa. 
 
    — Ou quebra. 
 
    Ele fechou os olhos. 
 
    — Ou quebra. 
 
    E então, para surpresa dela, e talvez dele mesmo, ele riu. 
 
    Um riso baixo. Escuro. Quase confortável. 
 
    — Passei a vida inteira escondendo dinheiro dentro de um instrumento que nunca toquei… — disse ele. — Agora ele vai tocar a vida dele com o que eu escondi da minha. 
 
    Dona Alzira não sabia se aquilo era sabedoria ou cansaço. 
 
    — Você tá bem? — perguntou, desconfiada. 
 
    Ele olhou de novo para o prego. 
 
    — Tô. 
 
    Respirou fundo. 
 
    — Pela primeira vez… eu acho que tô leve. 
 
    Ela não respondeu. Porque, no fundo, havia algo de perturbador naquela leveza. Algo que parecia liberdade… mas também parecia desistência. Naquela noite, a casa dormiu diferente. Mais vazia. Mas, de algum modo estranho… mais honesta. 
 
    Pela primeira vez em muitos anos, Seu Francisco não olhou para a parede antes de dormir. Porque, às vezes, perder o que se guarda é a única forma de descobrir o peso que aquilo tinha. Mesmo que o preço seja alto. Ou… exatamente por isso. 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 2 de abril de 2026

As Aventuras de Torto

    José Afonso do Nascimento nunca gostou do próprio nome. Dizia que era longo demais para quem vivia rápido. No quartel, encurtaram sua existência a um som seco e firme: Nascimento! Era assim que os sargentos gritavam, era assim que os colegas o chamavam, era assim que ele se tornava alguém ou talvez deixasse de ser quem era. Até o dia do acidente. 
 
    Ninguém gosta de lembrar exatamente como aconteceu. Nem ele. Nem os outros. Só se sabe que houve um erro, um instante mal calculado, um movimento brusco e depois disso, sua perna nunca mais respondeu da mesma forma. Foi dispensado. Sem cerimônia. Sem honra. Sem explicações longas. 
 
    Voltou para casa com uma marcha irregular e um silêncio que não combinava com ele. Mas o silêncio não durou. Porque José Afonso do Nascimento não nasceu para ser esquecido. Na primeira semana de volta à cidade, já não era mais “Nascimento”. Virou Torto. E o curioso é que não foi um insulto que o destruiu, foi um apelido que ele adotou com orgulho. 
 
    — “Torto anda diferente, mas chega mais longe”, dizia, com um sorriso enviesado e olhar aceso. 
 
    E chegava mesmo. Torto não era apenas um homem que mancava. Era um homem que ocupava espaço. Entrava nos bares como se fosse dono da noite, mesmo sem ter dinheiro para pagar todas as rodadas. Conversava com estranhos como se fossem velhos amigos. Sabia ouvir, sabia rir, sabia contar histórias e, sobretudo, sabia fazer alguém se sentir único por alguns minutos. 
 
    Era isso que atraía as garotas. Não era a beleza, embora fosse esbelto, com aquele tipo de corpo moldado pela disciplina militar. Não era a perfeição, sua caminhada denunciava o contrário. Era o jeito. Torto fazia o mundo parecer menos pesado. 
 
    Numa noite abafada de verão, no bar de Seu Arlindo, foi quando tudo começou de verdade. Ele estava encostado no balcão, girando um copo de cerveja pela metade, quando viu entrar uma mulher que parecia deslocada daquele lugar. Vestido claro, olhar distante, postura de quem carregava mais pensamento do que vontade. Torto percebeu na hora. Ele sempre percebia. Aproximou-se com seu passo irregular, mas firme. 
 
    — “Você tem cara de quem entrou no bar errado… ou na vida errada.” 
 
    Ela levantou os olhos, surpresa. 
 
    — “E você tem cara de quem não devia estar dando opinião.” 
 
    Torto sorriu. Era exatamente o tipo de resposta que ele gostava. 
 
    — “Então senta aqui e me prova que eu tô errado.” 
 
    Ela hesitou. Depois sentou. O nome dela era Helena. E aquela conversa, que começou com ironia, terminou com silêncio compartilhado. Um silêncio bom. Raro. 
 
    Mais tarde, já do lado de fora, sob a luz fraca dos postes, ela perguntou: 
 
    — “Você não se incomoda com o jeito que te chamam?” 
 
    Ele demorou um pouco para responder. Olhou para a própria perna. Depois para a rua vazia. 
 
    — “Já me incomodei. Hoje não mais.” 
 
    — “Por quê?” 
 
    — “Porque o mundo tenta te reduzir a alguma coisa… e quando você aceita, vira dono disso. E eu nunca quis ser moldado por quem quer que seja.” 
 
    Ela o observou como quem tenta entender algo maior. 
 
    — “Então você é o quê?” 
 
    Torto deu de ombros, com leveza. 
 
    — “Sou o cara que quase quebrou… e resolveu não ficar quebrado.” 
 
    Naquela noite, Helena não foi embora sozinha. E Torto percebeu que sua vida, que já era cheia de encontros, começava a se transformar em algo mais complexo. Porque algumas pessoas não passam. Elas ficam. Mesmo quando vão embora. 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense