Seu Francisco nunca confiou em bancos.
Dizia que banco era coisa de gente que acreditava demais no mundo, e ele, depois de tanto tempo de vida, só acreditava no que podia tocar. Terra, madeira, ferrugem… e no velho violão pendurado na parede da sala.
A casa era simples, dessas que rangem mais do que falam. No fim da tarde, quando o sol se derramava pelas frestas das tábuas, o violão parecia respirar junto com o lugar. Ficava ali, suspenso por um prego torto, como um retrato sem rosto.
Ninguém ousava tocar.
Nem a esposa, Dona Alzira, que já o conhecia há mais de quarenta anos, entendia bem aquele apego. Ele não tocava. Não afinava. Não limpava com frequência. Apenas… guardava.
— Coisa de velho — ela dizia, com o desdém manso de quem já desistiu de entender.
Mas não era.
Naquela tarde, Seu Francisco voltou da roça mais cansado que o habitual. O sol tinha sido cruel, o chão duro, e a enxada parecia pesar o dobro. Entrou em casa limpando o suor com a manga da camisa e, por hábito, não por vontade, olhou para a parede.
Parou.
O prego estava lá.
O violão, não.
O silêncio da casa mudou de textura. Ficou mais grosso, mais presente.
— Alzira… — chamou, com a voz baixa.
Ela apareceu da cozinha, enxugando as mãos no avental.
— O quê foi?
Ele apontou.
Não precisava dizer mais nada.
— Ah… isso aí? — disse ela, quase distraída. — Foi o menino. O neto do meio. Levou.
O tempo não passou.
Ele não gritou. Não xingou. Não fez escândalo.
Apenas sentou.
Devagar.
Como se o corpo tivesse decidido desligar antes da cabeça entender.
— Levou… — repetiu, mais para si do que para ela.
E então começou a chorar.
Não era um choro bonito. Não era desses que emocionam. Era um choro seco, truncado, quase feio. Um choro de quem não tem prática — ou de quem evitou a vida inteira.
Dona Alzira estranhou.
— Francisco… pelo amor de Deus… — aproximou-se. — É só um violão velho!
Ele balançou a cabeça.
— Não é.
Ela cruzou os braços.
— Vai me dizer agora que virou músico e eu não fiquei sabendo?
Ele soltou um riso curto, quebrado no meio.
— Eu nunca soube tocar.
— Então pronto.
Silêncio.
Ele respirou fundo. Olhou para o prego vazio como quem encara uma cova.
— Tinha dinheiro lá dentro.
Ela franziu a testa.
— Que dinheiro?
— Todo.
Ela riu.
Riu alto.
Riu como quem acha que o outro está fazendo uma piada ruim.
Mas ele não riu de volta.
E isso matou o riso dela no meio.
— Como assim… todo?
— Todo, Alzira. O que sobrou dos anos. O que eu não confiei no banco. O que eu escondi do mundo.
Ela piscou, devagar.
— Você… guardava dinheiro… dentro de um violão?
— Dentro da caixa. Tirei as cordas uma vez… fiz um corte por baixo… ninguém vê.
O silêncio voltou, mais pesado.
— Quanto? — ela perguntou, agora com a voz seca.
Ele demorou.
— O suficiente pra parar de trabalhar.
Ela sentou.
Não por escolha.
O corpo também decidiu por ela.
Os dois ficaram ali, lado a lado, olhando para o vazio onde antes havia madeira e segredo.
— O menino… — ela começou — ele nem sabe tocar direito.
— Melhor ainda — disse Francisco, com um sorriso estranho, quase torto. — Vai descobrir do jeito mais bonito.
Ela virou o rosto.
— Bonito?
Ele assentiu.
— Imagina… ele abre o violão… esperando som… e encontra silêncio em forma de dinheiro.
Ela engoliu seco.
— Ou vende.
Ele deu de ombros. Conhecia bem a figura do neto.
— Ou vende.
Pausa.
— Ou quebra.
Ele fechou os olhos.
— Ou quebra.
E então, para surpresa dela, e talvez dele mesmo, ele riu.
Um riso baixo. Escuro. Quase confortável.
— Passei a vida inteira escondendo dinheiro dentro de um instrumento que nunca toquei… — disse ele. — Agora ele vai tocar a vida dele com o que eu escondi da minha.
Dona Alzira não sabia se aquilo era sabedoria ou cansaço.
— Você tá bem? — perguntou, desconfiada.
Ele olhou de novo para o prego.
— Tô.
Respirou fundo.
— Pela primeira vez… eu acho que tô leve.
Ela não respondeu.
Porque, no fundo, havia algo de perturbador naquela leveza.
Algo que parecia liberdade… mas também parecia desistência.
Naquela noite, a casa dormiu diferente.
Mais vazia.
Mas, de algum modo estranho… mais honesta.
Pela primeira vez em muitos anos, Seu Francisco não olhou para a parede antes de dormir.
Porque, às vezes, perder o que se guarda é a única forma de descobrir o peso que aquilo tinha.
Mesmo que o preço seja alto.
Ou… exatamente por isso.
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

