domingo, 1 de fevereiro de 2026

O banho no açude

    Aquele dia começou como começam os dias que a gente nunca esquece: sem pressa, sem aviso, sem ideia do peso que a memória iria carregar depois. O sol estava alto, queimando a pele e a coragem, e alguém — não lembro quem — disse que nada era melhor do que um banho no açude da Saloba. A palavra açude sempre soou como promessa: água parada, silêncio, um descanso provisório do mundo. 
 
    Entramos rindo, como se a água fosse uma continuação da infância e não um risco. A lama no fundo escorregava, mas ninguém se importava. Até que o riso virou um som estranho, um chamado torto, uma agonia que não combina com brincadeira. Meu colega começou a se debater, os braços desenhando círculos inúteis, os olhos grandes demais para o rosto. Afogamento não grita — e talvez isso seja o mais assustador. 
 
    Eu não pensei. Não houve heroísmo, só impulso. Fui até ele como quem corre para dentro do próprio medo. A água, que antes refrescava, ficou pesada, grossa, quase sólida. Ele se agarrava a mim como se eu fosse terra firme, e eu afundava com ele. Naquele instante, entendi que salvar alguém não é um gesto bonito: é um pacto silencioso com a morte. Ou ele saía dali, ou nós dois ficaríamos. 
 
    Lembro do ar faltando, do peito queimando, do mundo ficando estreito. Lembro de pensar — de forma absurda e calma — que ninguém iria saber exatamente como foi. Que a Saloba seguiria igual, o açude quieto, o sol indiferente. Até que mãos apareceram, gritos surgiram tarde demais, e fomos puxados de volta para a margem como peixes errados no anzol do destino. 
 
    Ficamos deitados na terra, cuspindo água, tremendo sem frio. Ninguém falou nada. Não havia palavras para um quase. Quase morrer não vira história na boca dos outros, mas vira cicatriz em quem sente. Voltamos para casa diferentes, mesmo sem saber explicar. 
 
    Hoje, quando lembro daquele açude, não penso na água, nem no calor, nem nas risadas. Penso no instante em que descobri que a vida é frágil demais para brincadeira, e forte demais para acabar fácil. Na Saloba, eu aprendi que coragem não é não ter medo — é entrar nele sabendo que talvez não volte. E voltar, ainda assim. 
 
Crônica: Odair José, Poeta Cacerense