sábado, 17 de janeiro de 2026

O Tempo e a mediocridade humana

    1. A temporalidade do instante não me assusta. O que me aflige é a mediocridade dos que respiram o agora como se o futuro fosse um privilégio e não uma sentença. Ignoram que o destino é imparcial, e que a morte não exige convites. 
 
    2. Não temo o tempo — ele é apenas o mordomo da eternidade. O que me fere é a pequenez dos afetos, a mesquinhez dos que não percebem que a mesma campainha baterá às nossas portas. Uns fazem do instante um templo; outros, um depósito de banalidades. 
 
    3. A transitoriedade do momento é um consolo. Assusta-me mais a tibieza dos sentimentos, essa incapacidade de arder, de querer, de sofrer. Pois a todos é reservado o mesmo fim, e ainda assim há quem passe pela vida sem sequer tocar o próprio pulso. 
 
    4. O tempo não me intimida — é só um cobrador paciente. O que atormenta é a mediocridade emocional daqueles que fingem sentir e não percebem que o destino ri de todos, sem exceção, sem distinção, sem aplausos. 
 
    5. Não é o instante fugidio que me alarma. É o coração domesticado, raso, conveniente. Pois se todos marchamos para a mesma escuridão, que ao menos o caminho seja febril — o contrário é morrer duas vezes. 
 
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Ela cruzou a calçada

    A saia era curta, quase um desafio às convenções daquela rua estreita onde a tarde parecia engasgar no calor. As pernas à mostra se moviam com a confiança de quem conhece bem o próprio corpo, mas sabe que a verdadeira força mora no invisível. 
 
    Ela sorria de dentro de si mesma — não era um sorriso para o mundo, para os curiosos ou para os olhares que se acumulavam nos postes e vitrines. Era um sorriso íntimo, secreto, como quem se lembra de uma promessa feita na véspera ou de um plano prestes a desabrochar. 
 
    Bela, sim. Única, também. Mas sobretudo inesquecível. Porque havia nela alguma coisa que não se podia tocar: um perfume de decisão, uma leveza na contradição entre pudor e ousadia. Quem a via passar sentia por um instante que a vida poderia ser mais larga do que os limites impostos pela rotina — como se aquela mulher abrisse uma pequena fresta no tecido do cotidiano. 
 
    No bar da esquina, um homem levantou os olhos do celular e viu nela algo que não conseguia nomear. Talvez fosse o sorriso que não se oferecia a ninguém. Talvez as pernas que não pediam aprovação. Talvez a pura liberdade de existir para si e não para o teatro dos outros. 
 
    Ela cruzou a calçada, pediu um café, e esperou. Não por companhia, não por destino — esperou apenas o café. Sentou-se com a dignidade dos que não precisam negociar presença, e apoiou o queixo na palma da mão, observando o sol mover-se como um leão preguiçoso do outro lado da avenida. 
 
    Por alguns minutos, todas as discussões da cidade — as dívidas, as invejas, os suspiros, os tédios — ficaram suspensas num silêncio cúmplice. Havia algo nela que interrompia a lógica das horas. E foi assim que alguns entenderam, e outros não, que o mundo ainda podia produzir beleza sem pedir licença. 
 
    Terminado o café, levantou-se, ajeitou a saia, e voltou a sorrir — dessa vez um pouco mais por fora, mas apenas o suficiente para deixar curiosidade no ar. 
 
    E partiu. 
 
    Mais tarde, ninguém lembraria o nome que não foi dito, nem o perfume que o vento carregou. Mas todos diriam: “Houve uma mulher hoje. Curtíssima de saia, altíssima de silêncio. E ainda não sabemos ao certo o que ela levou daqui.” 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 11 de janeiro de 2026

O Filho Pródigo

    Lucas Soares acreditava que ir embora era sinônimo de liberdade. Criado em uma família simples e profundamente religiosa do interior da cidade de Lambari, ele decide deixar tudo para trás em busca de uma vida maior na cidade de Cáceres. O que encontra, porém, é um caminho de dinheiro fácil, violência, prisão e perdas irreversíveis. 
 
    Quando a queda atinge o fundo — o corpo, a fé e a própria identidade — Lucas descobre que sobreviver não é o mesmo que viver. E que voltar para casa pode exigir mais coragem do que partir. 
 
    Ao redor dele, uma família também aprende a lidar com seus próprios abismos: uma mãe que ora até gastar o chão, um pai que espera em silêncio, uma irmã marcada pelo julgamento, um irmão que escolhe permanecer, e amores que precisam ser deixados para que a vida siga. 
 
    Inspirado na parábola bíblica do filho pródigo, este romance vai além do retorno esperado. Ele questiona o perdão, confronta a religiosidade sem compaixão e mostra que redenção não é apagar o passado — é aprender a viver com ele. 
 
    O Filho Pródigo é uma história sobre perdas que não se consertam, fé que amadurece na dor e recomeços possíveis mesmo quando o corpo já não acompanha os sonhos. Porque, às vezes, o verdadeiro milagre não é voltar como antes — é voltar e decidir ficar. 
 
Autor: Odair José, Poeta Cacerense 
 
Obs. Lançamento em 2026

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

No salão do Romildo

    O salão de cabeleireiro do Romildo ficava numa avenida onde o sol da tarde insistia em bater pelo vidro, iluminando os espelhos, os frascos de spray e as conversas alheias. Era um salão modesto, mas limpo — ou, pelo menos, costumava ser. 
 
    Com o tempo, uma curiosa galeria de manchas começou a aparecer na parede atrás da fileira de cadeiras de espera. No começo, apenas sombras amareladas, marcas de braço, suor de quem passava o dia correndo atrás de trabalho, tintas mal secas, gotas de café e o pó invisível da cidade. Era como um mural do cotidiano que ninguém notava, até que o cabeleireiro Romildo começou a reparar. 
 
    — Curioso, né? — murmurou ele, enquanto borrifava água num topete rebelde — A parede não mente. Mostra quem a gente atende. 
 
    Mas o ápice dessa arqueologia urbana aconteceu numa tarde abafada de quinta-feira, quando entrou um rapaz de uniforme azul-marinho e mãos negras de graxa. Trazia também um sorriso meio tímido, meio satisfeito, daqueles que apenas um carro consertado com sucesso pode produzir. 
 
    Sentou-se para esperar a vez. E esperou. Encostou a cabeça na parede, descansou os ombros, coçou o cabelo. Ninguém percebia nada — até que ele levantou. 
 
    Romildo congelou no meio de um movimento com a tesoura, olhando para o alto como se tivesse avistado um ovni. Ali, estampada na parede branca como um quadro recém-assinado, estava a maior marca de graxa que o salão já vira. Não era apenas uma mancha: era um auto-retrato em negativo. Ombros, nuca, o formato da cabeça e até um borrão ondulado que denunciava a textura do cabelo. Poderia ter sido enviado para um museu, se algum museu do mundo colecionasse acidentes domésticos. 
 
    — Meu Deus... — soltou o cabelereiro, tentando manter a dignidade profissional — Meu amigo, você estava trabalhando em quê? Na caldeira de um vulcão? 
 
    O rapaz riu, sem entender direito o tamanho do estrago. 
 
    — Mecânica ali da avenida — disse, orgulhoso. — Suspensão. Troquei óleo de caminhão o dia todo. 
 
    Romildo respirou fundo, pegou a capa preta e fez sinal para ele sentar. Quando passou a mão no cabelo do rapaz, sentiu algo pastoso, espesso. 
 
    — Você tem graxa no cabelo. 
 
    — Ah, tenho — respondeu ele, como quem diz que o tempo está nublado. — Caiu um pouco. 
 
    “Um pouco” era uma subestimação poética. O pouco que havia caído poderia lubrificar um Fusca até o Apocalipse. 
 
    O corte levou o dobro do tempo, o triplo de toalhas e um litro inteiro de shampoo anti-resíduos. Ao final, Romildo concluiu que, embora difícil, a mecânica era mais honesta do que a barbearia: na primeira, a graxa escorria do carro; na segunda, escorria do cliente. 
 
    Depois que o rapaz pagou e saiu com o cabelo brilhando — agora por outros motivos — Romildo encarou a parede como quem encara um enigma filosófico. 
 
    Tirou um pano, spray, detergente, álcool e água quente. Esfregou até quase ouvir a tinta implorar por misericórdia. A mancha apenas desbotou, como uma lembrança que se recusa a desaparecer. 
 
    E ali ficou. 
 
    Nos dias que vieram, mais pessoas vieram cortar o cabelo, conversar sobre política, falar mal do Lula, reclamar de casamento ou pedir para “tirar só as pontinhas”. E a marca de graxa, monumental e silenciosa, continuou na parede. Alguns clientes passaram a notar. 
 
    — O que é isso aqui? — perguntou uma senhora, apontando com o dedo. 
 
    — História — respondeu Romildo, sorrindo de canto. — A parede também corta cabelo. 
 
    E ninguém contestou. Afinal, havia paredes por aí com quadros importantes, outras com diplomas, e outras até com poesias. A do Romildo tinha algo melhor: um retrato involuntário da vida como ela é — suja, engraçada e impossível de apagar completamente. 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

As 7 pragas na Praça Barão (Parte 7) - As Víboras

    O silêncio depois da enchente era o mais assustador. Cáceres parecia suspensa no tempo — ruas cobertas de lama, postes caídos, janelas quebradas. O rio dormia outra vez, mas o ar ainda tinha gosto de ferro. 
 
    As rádios falavam em tragédia natural. Os sobreviventes, em castigo divino. Mas na Praça Barão, onde o chão ainda fumegava, havia quem soubesse que o fim não era apenas físico. 
 
    Laura caminhava entre os escombros. Os pés afundavam na lama espessa, e sob cada passo, sentia algo se mover — como se a terra respirasse. Ao seu lado, o padre Augusto carregava um crucifixo quebrado, os olhos fundos e febris. 
 
    — A cidade dorme — disse ele. — Mas há algo que ainda não descansou. 
 
    Laura olhou o horizonte. O sol nascia vermelho sobre o rio. 
 
    — A sétima virá com o dia — respondeu. 
 
    O primeiro sibilo veio do cais. Depois, outro, e mais outro. Em minutos, o som das víboras tomou a praça. 
 
    Elas surgiam de todos os lados — do túnel soterrado, das bocas de bueiro, dos galhos das árvores. Eram verdes, negras, amarelas — uma dança hipnótica e silenciosa. Mas não atacavam. Apenas cercavam. 
 
    O padre ajoelhou-se, exausto. 
 
    — Que seja feita a vontade Dele. 
 
    Laura se aproximou, observando o chão rachar sob seus pés. 
 
    E então, do centro da praça, onde antes erguia-se o Marco do Jauru, o solo se abriu. Um clarão branco, quente e pulsante subiu, iluminando tudo. Dentro dele, as silhuetas das sete pragas se ergueram — formigas, abelhas, corvos, gafanhotos, vespões, jacarés e víboras — todas unidas num só corpo, feito de sombra e luz. 
 
    “Vocês construíram sobre ossos. Fizeram da dor um alicerce. Mas nada fica enterrado para sempre.” 
 
    A voz soava dentro da mente deles. Laura caiu de joelhos, lágrimas e terra misturando-se em seu rosto. 
 
    — Quem fala comigo? — gritou. 
 
    “Os que foram esquecidos. Os que o Barão silenciou. Os que guardaram o pacto que agora se desfaz.” 
 
    O padre ergueu o crucifixo partido. 
 
    — Então é o fim. 
 
    “Não. É o recomeço.” 
 
    A luz se expandiu, cobrindo toda a praça. Por um instante, o tempo parou. As víboras se dissolveram no ar, e o clarão se desfez como neblina. 
 
    Quando o dia clareou, a Praça Barão estava vazia. Nem uma cobra, nem um corpo, nem um vestígio das pragas. Somente uma nova estátua erguida no centro — ninguém a vira ser colocada ali. Representava uma mulher segurando um cálice, com o rosto metade humano, metade serpente. Na base, uma inscrição: 
 
    “A terra lembra.” 
 
    Os moradores voltaram aos poucos, tentando reconstruir o que restava. Mas havia um rumor entre os mais antigos — de que, nas madrugadas sem lua, era possível ouvir o sussurro das víboras vindo do rio. E que, às vezes, quem se aproximava demais do cais jurava ver uma mulher de olhos verdes observando da água, em silêncio, guardando o que restou do pacto. 
 
    Seu Adão desapareceu naquela semana. Alguns diziam que foi levado pela enchente, outros que seguiu o curso do rio até desaparecer no Pantanal. Mas Laura sabia: ele fora o último guardião. 
 
    Na parede de seu antigo quarto, ela encontrou um bilhete úmido, escrito à mão: 
 
    “As pragas não vieram para destruir. Vieram para lembrar. Que o que é negado volta. Sempre.” 
 
    E, ao longe, quando o vento soprava sobre as águas do Rio Paraguai, o murmúrio das serpentes ainda ecoava — como uma oração antiga, como um aviso, como o último segredo da Praça Barão. 
 
Continua... 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

A filha da manicure

    A garota era muito linda — dessas belezas que não pedem licença ao mundo. Tinha o rosto delicado, os olhos fundos como se carregassem perguntas antigas, e um sorriso raro, guardado como objeto frágil. Mas não tinha braços. Nunca tivera. E aprendera cedo que o mundo costuma reparar primeiro no que falta antes de enxergar o que existe. 
 
    A mãe, ao contrário, parecia ter braços demais. Braços incansáveis, mãos firmes, dedos precisos. Era manicure — e não uma qualquer. Seu nome corria de boca em boca pelas ruas, pelos salões improvisados nas casas, pelas mulheres que esperavam semanas por um horário. Diziam que ela não apenas pintava unhas, mas devolvia dignidade. Em cada gesto havia cuidado, em cada esmalte, uma promessa de beleza possível mesmo em dias difíceis. 
 
    A garota cresceu sentada ao lado da mesa pequena onde a mãe trabalhava. Observava tudo em silêncio: o algodão embebido em acetona, o alicate brilhando sob a luz fraca, os vidrinhos coloridos alinhados como um exército dócil. Aprendeu os nomes das cores antes mesmo de aprender a escrever. Vermelho paixão. Nude discreto. Azul coragem. 
 
    O desejo nasceu ali — não de ter braços, apenas, mas de ter a disposição da mãe. Aquela força que acordava cedo, que não reclamava, que sustentava a casa com as próprias mãos. A garota queria sentir esse cansaço bom no fim do dia. Queria dizer “trabalhei”. Queria ser necessária. 
 
    Mas o corpo impunha seu silêncio. 
 
    Houve dias em que chorou escondida, mordendo o lábio para não interromper o trabalho da mãe. Dias em que odiou a própria beleza, como se ela fosse um deboche do destino: tão perfeita por fora, tão limitada aos olhos do mundo. O espelho era cruel. Mostrava-lhe tudo o que era — e tudo o que diziam que ela jamais seria. 
 
    A mãe percebia. Sempre percebia. 
 
    — Você tem mãos que o mundo não vê — disse certa vez, enquanto lixava uma unha com paciência infinita. — Mãos que pensam. Mãos que sentem. 
 
    A garota não respondeu. Mas guardou a frase como quem guarda uma semente. 
 
    Com o tempo, começou a ajudar como podia. Organizar horários usando a voz. Escolher cores com precisão quase mágica. Aconselhar clientes que vinham mais pelo desabafo do que pela manicure. Tornou-se parte do ritual. Parte do sucesso. Parte da fama silenciosa da mãe. 
 
    E então algo mudou. 
 
    As clientes começaram a pedir a opinião da garota. Depois, passaram a marcar horário “com as duas”. A mãe fazia as unhas. A filha acolhia. O salão improvisado virou refúgio. Beleza e escuta. Cuidado e palavra. 
 
    A garota nunca teve braços. Nunca teve mãos. Mas descobriu que também existia trabalho feito de presença, de atenção, de sensibilidade. Um trabalho que não sangra os dedos, mas cansa a alma — e ainda assim vale a pena. 
 
    Um dia, ao fechar o último esmalte, a mãe olhou para a filha e sorriu cansada. 
 
    — Você tem mais disposição que eu — disse. 
 
    A garota sorriu de volta. 
 
    E pela primeira vez, sentiu-se inteira. 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

Os Três Amores de Davi

    Davi cresceu acreditando que o amor precisava ser correto para ser verdadeiro. Criado dentro da fé evangélica, encontrou nos livros um refúgio e, na igreja, um caminho que parecia seguro. Mas amar, ele descobriria, nunca foi uma estrada reta. 
 
    Em Cáceres, Mato Grosso, nos anos 1990 — uma cidade marcada por conflitos, gangues e julgamentos silenciosos — Davi vive três amores que transformam sua maneira de existir. 
 
    Sofia é o amor aprovado, o que promete futuro, ordem e pertencimento. Alice é o amor intenso e rebelde, que desafia a fé, o corpo e os limites. Jeane é o amor marcado pelo passado, que não pede salvação, apenas permanência. 
 
    Entre culpa e liberdade, fé e desejo, aceitação e exclusão social, Davi aprende que amar pode ser tão perigoso quanto necessário — e que algumas escolhas não salvam, mas amadurecem. 
 
    Os três amores de Davi é um romance psicológico e sensível sobre formação emocional, conflitos religiosos e a difícil coragem de permanecer fiel a si mesmo em um mundo que insiste em rotular. 
 
    Porque, às vezes, amar não é encontrar quem nos complete — é descobrir quem somos quando não podemos mais nos esconder. 
 
Autor: Odair José, Poeta Cacerense 
 
Obs. Lançamento em 2026

domingo, 4 de janeiro de 2026

Os Sobreviventes

    Em Lambari D'Oeste, nos anos 80, um grupo de jovens entra na água de um riacho comum e nunca mais retorna do mesmo jeito. 
 
    O que começa como uma tarde inocente na Pontinha se transforma numa travessia sem mapas: um mundo antigo, pré-histórico e simbólico, onde a vida cobra preços impiedosos e o amor nasce como forma de resistência. Ali, florestas acolhem, pântanos engolem, criaturas guardam limites, e cada escolha deixa marcas que não cicatrizam. 
 
    Enquanto isso, na cidade, o desaparecimento vira boato, medo e silêncio. Helena, uma jovem que se recusa a esquecer, desce onde ninguém quer olhar — e atravessa. Seu gesto liga dois mundos que insistem em negar um ao outro. 
 
    Os Sobreviventes é um romance de aventura e fantasia atravessado por drama psicológico, romance e suspense. Uma história sobre perdas que moldam, amores que persistem, vidas que continuam — e retornos que jamais são completos. 
 
    Não é um livro sobre heróis. É sobre quem fica. Sobre quem volta diferente. E sobre quem nasce carregando um mundo que ninguém mais vê. Porque algumas travessias não pedem explicação. Pedem apenas memória. 
 
Autor: Odair José, Poeta Cacerense 
Obs. Lançamento em 2026
 
Livro já disponível:

sábado, 3 de janeiro de 2026

Do livro que não deveria existir

    O livro foi encontrado sob os escombros da antiga Biblioteca Central, quando já não havia leitores — apenas arqueólogos do fracasso. Suas páginas estavam amareladas não pelo tempo, mas pelo abandono. Nenhuma assinatura, nenhuma data. Apenas um aviso escrito à mão na folha inicial: “Este texto não pretende ensinar. Pretende lembrar.” 
 
    Na época em que foi escrito, pensar ainda era permitido, mas já era malvisto. Os que pensavam falavam baixo, como quem confessa um crime. O autor desta crônica parece ter entendido cedo demais que o colapso não viria pelas armas, mas pelo aplauso. 
 
    Ele descreve um mundo onde a estupidez não precisava ser imposta — era escolhida. Onde as pessoas entregavam o esforço de compreender em troca do conforto de pertencer. O idiota, escreve ele, não era um inimigo externo, mas uma possibilidade íntima, cultivada com zelo e recompensada com visibilidade. 
 
    Segundo o texto, o momento decisivo não foi a queda das instituições, mas o riso diante delas. Quando a ignorância passou a ser celebrada como autenticidade e o desprezo pelo saber ganhou status de virtude moral. A partir daí, o pensamento se tornou suspeito, como se toda reflexão escondesse uma intenção obscura. 
 
    O autor fala de líderes que não prometiam futuro, apenas validação. Diz que eles não conduziam multidões — espelhavam-nas. E que, ao se verem refletidas, as massas chamaram aquilo de verdade. Foi assim, escreve ele, que o ruído substituiu o sentido e a repetição tomou o lugar da razão. 
 
    Há um trecho especialmente inquietante, riscado e reescrito diversas vezes, como se o próprio autor tivesse hesitado em deixá-lo existir. Nele, afirma-se que a maior vitória da estupidez foi convencer os inteligentes de que resistir era arrogância. O silêncio dos lúcidos, segundo o texto, não foi prudência — foi rendição. 
 
    Nas últimas páginas, a crônica abandona qualquer pretensão analítica e assume um tom quase litúrgico. O autor prevê um tempo em que livros não seriam queimados porque já não causariam incômodo. Estariam ali, intactos, ignorados, como relíquias de um culto extinto: o culto ao pensamento. 
 
    O colapso, diz ele, não seria lembrado como tragédia, mas como transição. Receberia nomes amenos, slogans otimistas, cores vibrantes. A ruína, afinal, precisava parecer agradável para ser aceita. 
 
    O livro termina abruptamente. Não há conclusão, apenas uma última frase, escrita com tinta mais fraca, talvez apressada: “Quando este texto for lido sem medo, já não haverá nada a ser salvo.” 
 
    Os estudiosos discutem por que a obra foi proibida. Alguns dizem que era pessimista demais. Outros, que incitava dúvida. Mas entre os poucos que ainda sabem ler com cuidado, há um consenso silencioso: o livro não foi censurado por mentir, mas por ter dito cedo demais aquilo que todos preferiram esquecer. 
 
Crônica: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

As 7 pragas na Praça Barão (Parte 6) - Os Jacarés

    Choveu durante sete dias. Chuva espessa, úmida, sem trégua, como se o céu tivesse esquecido o que era parar. O rio Paraguai cresceu em silêncio, transbordando devagar, como um animal que acorda depois de muito sono. 
 
    Na oitava noite, as águas chegaram até a Praça Barão. A fenda aberta pela estátua do Marco do Jauru cuspia vapor quente e lama, e o túnel, antes selado, agora respirava. 
 
    O padre Augusto e Laura estavam lá. Os militares haviam abandonado o local — ninguém queria permanecer por perto. O ar cheirava a ferro e a mofo antigo. Laura iluminou a entrada com uma lanterna. 
 
    — Padre, se há respostas, estão aqui. 
 
    Ele hesitou. 
 
    — E se não houver? 
 
    — Então restará o que sobrar da verdade. 
 
    Desceram. Os degraus eram irregulares, cobertos de limo. As paredes, cheias de símbolos gravados à mão — rostos sem olhos, correntes, inscrições que misturavam latim, português arcaico e rezas africanas. No fundo, um corredor estreito levava a uma grande câmara circular. 
 
    Havia ali o que parecia um altar. E, ao redor, dezenas de ossadas humanas, empilhadas com cuidado ritual. No centro do altar, um cálice de pedra, ainda úmido, como se alguém o tivesse usado há pouco. 
 
    O padre tocou o chão. Estava morno. Laura se ajoelhou diante das ossadas e percebeu algo gravado nos crânios: pequenas marcas, idênticas às formas das pragas — formigas, abelhas, corvos, gafanhotos, vespões… e algo que lembrava escamas. 
 
    — Eles foram selados aqui — sussurrou ela. — Escravizados, sacrificados e depois esquecidos. 
 
    O padre assentiu, com a voz embargada: 
 
    — E o Barão quis transformar a dor em fundação. 
 
    O som do rio começou a aumentar, um rugido grave, próximo. O túnel tremia. Do fundo, veio um estalo — depois outro, depois um rugido. 
 
    Jacarés. Enormes, antigos, vindos das entranhas do rio. Seus olhos brilhavam como brasas sob a luz da lanterna. Não pareciam bestas — pareciam guardiões. 
 
    Eles avançaram lentamente, cercando o altar, mas não atacaram. Pararam diante de Laura e do padre, imóveis, respirando. E então, do interior da parede, uma voz — rouca, profunda, de muitas vozes misturadas — começou a falar: 
 
    “Sete selos. Sete pragas. Aqui dormem os que o Barão calou. O sangue chamou o sangue. E a cidade esqueceu.” 
 
    Laura sentiu o chão pulsar sob os joelhos. O padre ergueu o crucifixo e murmurou uma prece, mas a voz o interrompeu: “Não há absolvição sem lembrança.” 
 
    As águas começaram a subir. O túnel inteiro tremia como um corpo em febre. Os jacarés recuaram, voltando às águas, e o altar se partiu ao meio, revelando uma caixa de ferro incrustada no chão. Laura tentou tocá-la, mas uma descarga percorreu sua mão — uma corrente viva, feita de passado. 
 
    Do lado de fora, o rio invadiu a praça, arrastando carros, árvores e postes. Cáceres se tornava novamente o pântano de onde nascera. 
 
    Laura e o padre subiram com dificuldade, cobertos de lama e medo. Atrás deles, o túnel se fechava, engolido pela água. A estátua do Barão tombou, rachando de cima a baixo, e caiu no rio. 
 
    De longe, Seu Adão observava a enchente com os olhos marejados. 
 
    — Seis já despertaram — murmurou. — Só falta a língua das serpentes pra contar o resto. 
 
Continua... 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense